sábado, 1 de janeiro de 2011

Escolas Históricas

O conceito de paradigma não é o único que ajuda a estabelecer a identidade teórica dos historiadores. Vamos abordar neste momento outro conceito importante, queé o de "Escola Histórica".

Uma “Escola” – fora a noção mais vulgar que se refere exclusivamente a instituições de Ensino – pode ser entendida no sentido de uma “corrente de pensamento”, sempre que ocorre um padrão ou programa mínimo perceptível no trabalho de grupo formado por um número significativo de praticantes de determinada atividade ou de produtores de certo tipo de conhecimento, sendo ainda importante que haja uma certa intercomunicação entre estes praticantes, a constituição de uma identidade em comum, frequentemente também ocorrendo a consolidação de meios para a difusão das idéias do grupo, como é o caso de Revistas especializadas controladas por seus membros ou programas veiculados em mídias diversas. Será importante entender ainda que as “escolas” podem apresentar uma referência sincrônica – relacionada a autores ou praticantes de uma mesma época – e uma referência diacrônica, no sentido de que a “Escola” pode se estender no tempo e abarcar sucessivas gerações, ou ser por elas reivindicada.

A Historiografia, no decorrer de sua própria história, conheceu muitas “escolas históricas”. Algumas eram entendidas como “escolas” pelos seus próprios praticantes, outras foram classificadas como escolas independentemente de seus componentes. Uma boa parte das “escolas históricas” até hoje conhecidas relacionaram-se a espacialidades específicas, não raro se referindo a países a que pertenciam os historiadores que nela se viram incluídos. É assim que, no século XVIII, conhecemos a “Escola Escocesa”, que se referia a eruditos iluministas atuantes na Escócia como Adam Fergusson, John Millar ou David Hume. No século XIX, podemos lembrar a “Escola Alemã”, que reunia historiadores alemães ligados ao paradigma historicista, e no século XX podemos falar em uma “Escola Marxista Inglesa”, que reunia historiadores marxistas do Reino Unido que se vinculavam à Revista Past and Present e que propunham certas renovações no corpo teórico-prático do Materialismo Histórico.

A base comum de uma “escola histórica” em torno de uma revista, aliás, também foi bastante comum na história da historiografia, e podemos lembrar o movimento que ficou conhecido como Escola dos Annales, ao se remeter a historiadores franceses do século XX que tiveram como principal instrumento de divulgação de seu trabalho a revista de mesmo nome, ou, ainda, a Escola Metódica, que reunia historiadores também franceses através da Revue Historique . Muitos também enxergam como uma “escola” os historiadores ligados à micro-história italiana, que apresenta uma base nos Quaderni Storici, embora neste caso os próprios historiadores envolvidos não se vejam deste modo.

Para que se tenha uma “Escola Histórica”, é preciso, desta maneira, que haja certo padrão ou linguagem comum entre seus participantes, ou outro elemento qualquer que seja forte o suficiente para estabelecer uma unidade – o que pode se dar através do Método, de uma determinada perspectiva teórica, de uma determinada maneira de entender a História, ou do pertencimento a determinado paradigma historiográfico. Pode-se falar ainda, para caracterizar uma Escola, em um “programa” em comum, para utilizar uma expressão de Andrés Burguière em um artigo de 1979 sobre “O Nascimento dos Annales”.

Nem sempre é fácil encontrar elementos em comum quando se discute o trabalho de um grupo de historiadores vinculados a uma Revista ou Instituição: discute-se, por exemplo, se a chamada “Escola dos Annales” era mesmo uma escola (BURKE, 1990) , se constituía um “movimento historiográfico”, se chegou a apresentar algo que poderia ser entendido como um “novo paradigma historiográfico” (STOIANOVICH, 1976) , ou se na verdade abrigava dois ou mais paradigmas (IGGERS, 1988) . Há mesmo os que rejeitam a idéia de que a Escola dos Annales teria produzido o tão propalado corte na historiografia francesa, como é o caso de Jean Glénisson, que, em um ensaio de 1965 sobre a Historiografia Francesa Contemporânea, chega a falar de uma “tranqüila evolução” da historiografia francesa “desde cem anos”.

De todo modo, apesar das habituais dificuldades classificatórias, o espírito de grupo que determinados historiadores terminam por constituir, trabalhando para uma finalidade comum, frequentemente é forte o suficiente para que se crie a idéia de uma “Escola”. Marc Bloch e Lucien Febvre, à parte certos pontos em comum que se referiam às críticas contra a historiografia francesa tradicional representada pelos metódicos, apresentavam influências e estilos historiográficos distintos, mas isto não impediu que erigissem um dos movimentos mais bem sucedidos da historiografia contemporânea. Sua unidade – além de estratégias bem calculadas para a conquista de um espaço institucional – foi assegurada por um programa mínimo, em torno da idéia da “interdisciplinaridade”, da multiplicação de interesses historiográficos para além do “político”, e da necessidade de opor radicalmente uma “História-Problema” a uma historiografia que consideravam factual. Mas a verdade é que, no interior destes parâmetros, os historiadores dos Annales desenvolveram diversificadas formas de trabalho.

Outro aspecto importante a ressaltar é que, face ao sucesso ou projeção de um determinado grupo que tenha constituído ou ficado conhecido como uma “Escola”, não raramente surgem os herdeiros, os que se postulam como continuadores da escola em questão, mesmo que já tenham se distanciado dos aspectos que unificavam a escola historiográfica na sua origem. Não é incomum que se estabeleçam polêmicas acerca da continuidade ou descontinuidade de um determinado grupo de historiadores em relação a outro grupo anterior que seja evocado como elemento identitário importante. Podemos dar o exemplo da notória polêmica sobre a continuidade ou descontinuidade entre o arco que abrange as duas primeiras gerações da chamada Escola dos Annales (1930-1968), e a chamada Nouvelle Histoire, que reúne novos historiadores franceses em torno da mesma Revista dos Annales que um dia fora fundada por Marc Bloch e Lucien Febvre. Os historiadores ligados à Nouvelle Histoire seriam mesmo legítimos herdeiros dos Annales – tal como propõe Peter Burke em seu livro “A Escola dos Annales – Revolução Francesa da Historiografia” (1990) – ou, tal como propõe François Dosse, há muito mais uma ruptura entre a Escola dos Annales e esta outra corrente, que a partir das últimas décadas do século XX tende a desenvolver o que foi por muitos chamado de “Uma História em Migalhas” (DOSSE, 1987)?

Se a polêmica existe, o que se percebe é que o gesto de se auto-inscrever em uma “Escola Histórica” também está frequentemente relacionado a mecanismos formadores de Identidade, à imagem que determinado grupo pretende projetar de si mesmo. Os próprios historiadores da Nouvelle Histoire tendem a desejar reforçar esta vinculação com as gerações de Marc Bloch e de Braudel. Eis aqui um exemplo de que o pertencimento a uma “escola” é também uma construção da qual podem participar os próprios sujeitos envolvidos.

No próximo texto deste blog, vamos examinar uma escola historiográfica específica, de modo a melhor compreender este conceito na prática e em situações concretas.

2 comentários:

  1. Parabéns pelo Blog.....prof eduardo martins

    ResponderExcluir
  2. Muito bom este blog mesmo!!! Parabéns! Estou estudando por ele para entrar na pós em História!!!

    ResponderExcluir