sábado, 4 de setembro de 2010

Teoria e Metodologia

Podemos iniciar uma compreensão sobre o contraste e interação entre Teoria e Metodologia com uma pequena lembrança sobre a origem das próprias palavras. "Teoria", na sua origem etimológica, está relacionada ao verbo "ver", no sentido de "conceber" (ter uma certa concepção de algo, ou enxergar uma realidade de determinada maneira,quer dizer, por um certo viés).
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Enquanto isso, "Metodologia" relaciona-se ao verbo "fazer". Etimologicamente, "Método" está relacionado a "caminho", A Metodologia surge quando você tem uma tarefa concreta a ser realizada, um objetivo a ser alcançado, uma ação a ser desfechada. Aí, nesse momento em que se passa à ação ou à prática, é preciso adotar procedimentos, escolher materiais e instrumentos de trabalho, planejar uma ação.
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Teoria e Metodologia são, portanto, campos bem diferenciados, embora interajam uma com a outra na produção de conhecimento científico (e, na verdade, em diversas áreas e atividades presentes na vida).
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Quando um pesquisador vai estudar algo, ele já tem uma certa concepção teórica (uma determinada visão de mundo). Também pode ocorrer que, diante de uma situação aparentemente obscura, ou demasiado complexa, o pesquisador adote certos instrumentos teóricos para ver as coisas de determinada maneira. Desta maneira, a Teoria surge da necessidade de enxergar a realidade de forma mais organizada, mais sistematizada.
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A Teoria envolve elementos e aspectos diversos. Os "conceitos", por exemplo, são instrumentos de primeira necessidade para a produção do conhecimento científico, pois eles permitem que uma certa realidade obscura ou complexa seja vista de determinada maneira, a partir de certa perspectiva ou recorte da realidade. Podemos dar o exemplo do conceito de "classe social". Trata-se de um conceito que propõe enxergar uma sociedade como que partilhada por diferentes grupos sociais, definidos por obrigações, privilégios, ou diferentes status (como a posse de mais ou menos dinheiro, nas sociedades capitalistas).
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Quando se enxerga a sociedade a partir de conceitos, como este, torna-se possível simplificar ou organizar mentalmente uma realidade que, de outro modo, seria demasiado complexa ou caótica. Os conceitos são, portanto, instrumentos que possibilitam que enxerguemos por um certo viés uma realidade (uma sociedade histórica, ou um processo, por exemplo).
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Outra coisa ligada ao âmbito da Teoria são os paradigmas que podem orientar a ação e compreensão de um certo campo de saber. Podemos entender um paradigma como uma certa maneira de enxergar determinado campo de conhecimentos. Por exemplo, a História oferece vários paradigmas àqueles que a praticam. Três dos principais paradigmas que surgiram já no século XIX (o século em que a História começou a se postular como um campo científico) foram o Positivismo, o Historicismo e o Materialismo Histórico. Em cada um destes paradigmas, este campo de conhecimento que é a História é visto ou trabalhado de maneira diferente. Isto é, cada um destes paradigmas concebe de maneira diferente a História (isto é, enxerga de maneira difeneciada a História, como campo de produção de um determinado tipo de saber). Paradigmas ditintos podem não apenas compreender de maneira diferenciada o seu campo de saber, como também atribuir tarefas distintas para os seus praticantes, fazer perguntas específicas, lidar de maneira diversificada com a questão da subjetividade e da objetividade.
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Apenas para lembrar um exemplo, o paradigma positivista postula que o historiador pode fazer o seu trabalho ancorado em uma total neutralidade, como se ele mesmo estivesse destacado da História. O Historicismo, ao contrário, já não enxerga o ofício do historiador desta maneira, pois sustenta que o próprio historiador está mergulhado na História (isto é, na areia movediça que produz o conhecimento histórico). Ele pode assegurar uma certa objetividade, se trabalhar com isenção científica e com uma boa metodologia, mas não pode assegurar uma neutralidade absoluta. Para os Historicistas, e também para o Materialismo Histórico, o ponto de vista neutro, fora da história, não existe. Mas não devemos confundir isso com outra coisa: isso não quer dizer que escrever História seja o mesmo que elaborar um panfleto político.
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O Materialismo Histórico, um terceiro paradigma, concebe a história a partir de um duplo ponto de vista: de que o historiador deve considerar a base material da vida social para compreender uma sociedade histórica, e de que a história se movimenta através de uma "luta de classes". Portanto, o Materialismo Histórico vê a História de uma certa maneira, pois enxerga os processos históricos a partir dos conceitos de "luta de classes", "modos de produção", e outros.
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Os "paradigmas", enfim, também são aspectos relacionados à Teoria.
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Por fim, outra coisa que faz parte da "Teoria" são os inúmeros "campos da história" nos quais a História se organiza nos dias de hoje. A organização de um campo de saber em especialidades ou âmbitos de ação é um aspecto importante da teoria, pois se relaciona ao modo de ver o próprio campo de conhecimento ao qual nos filiamos - a própria disciplina em que nos inscrevemos. A História conhece diversos campos históricos: a História das Mentalidades, a História Econômica, a História Cultural, a História Política, a Micro-História, entre inúmeras outras modalidades.
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E quanto à "Metodologia"? O que faz parte da Metodologia? Vimos acima que "Metodologia" se relaciona ao verbo "Fazer". Quando o historiador vai iniciar o seu trabalho na prática, isto é, vai iniciar a sua pesquisa, deve adotar certas escolhas metodológicas. Para o âmbito de estudos que nos interessa, que é a História, devemos considerar que a maior parte das escolhas feitas pelos historiadores passam por aquilo que chamamos de "Fontes Históricas". Como o exame das fontes constitui a única maneira de um historiador atingir uma sociedade do passado, ou compreender processos que já aconteceram, isto termina por obrigar o método histórico a constituir e analisar fontes históricas. Ainda não existe um "visor do tempo" que possibilite o historiador enxergar diretamente o passado. Por isso, os historiadores se especializaram em enxergar o passado através das fontes: é através de fontes - resíduos, objetos materiais, textos produzidos na época que está sendo analisada - que os historiadores conseguem construir uma certa representação do passado (reunir fatos históricos e descrever processos, por exemplo) e também desenvolver a sua interpretação.
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Se vamos examinar algum problema histórico específico, o uso das fontes é fundamental. É claro que também é importante a leitura de Bibliografia (obras dos outros historiadores que examinaram o mesmo assunto). Mas esse diálogo com a produção dos outros historiadores apenas complementa o trabalho original que pode ser realizado por um historiador, e não substitui de maneira nenhuma a utilização de fontes históricas. Sem fontes, é como se estivéssemos enxergando uma época a partir dos olhos dos outros historiadores, e não estabelecendo um diálogo com a própria época que buscamos compreender.
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Uma última coisa importante a ser discutida é o significado de "Historiografia". A Historiografia constitui o conjunto das obras já produzidas por historiadores. Quando trabalhamos com o campo da Historiografia, estamos examinando o trabalho dos próprios historiadores. É como se tomássemos os próprios trabalhos e textos produzidos por historiadores como "fontes históricas". Na Historiografia - ou melhor, na análise dos trabalhos historiográficos, não estamos preocupados em examinar um problema histórico específico (o Nazismo ou a Revolução Francesa); o objetivo é examinar a maneira como os historiadores abordaram determinado problema histórico (por exemplo, como os historiadores produziram diferentes leituras sobre o Nazismo, ou como produziram diferentes interpretações ou teorias sobre a Revolução Francesa).
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Essa é a diferença entre um trabalho histórico (um trabalho que toma por objeto uma sociedade ou processo do passado) e um "trabalho historiográfico" (um trabalho que examina aquilo que foi produzido pelos historiadores em relação a determinada questão). Uma coisa e outra são importantes. Mas devemos ter consciência acerca da distinção entre os dois tipos de trabalhos.
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Para uma reflexão mais aprofundada sobre a distinção entre teoria e metodologia, leiam o primeiro capítulo do volume 1 de 'Teoria da História' (BARROS, José D'Assunção. Teoria da História. volume 1: os Conceitos Fundamentais da Teoria da História. Petrópolis: Editora Vozes, 2011).

7 comentários:

  1. Muito bom. Texto muito claro de objetivo. Entendi perfeitamente e me ajudou muito na concepção da distinção entre Teoria e Metodologia. Obrigada!

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    1. Este comentário foi removido pelo autor.

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    2. Concordo Amanda. Texto bem coerente! Beijos

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    3. Concordo Amanda. Texto bem coerente! Beijos

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  2. Tive a oportunidade de ter o Assunção na minha banca de monografia, pessoa simples porém sábia. O meu curso de história foi basicamente de historigrafia... rs

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