quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

O Tempo (7). O sistema conceitual de Koselleck para uma reflexão historiográfica sobre o Tempo

Vamos agora examinar uma das mais recentes e interessantes concepções sobre a relação entre Tempo e História, bem como sobre as mudanças constantes na sensibilidade coletiva diante do Tempo. O responsável por esta nova concepção historiográfica do Tempo foi o célebre historiador dos conceitos, recentemente falecido, Reinhart Koselleck. O texto a seguir foi adaptado do capítulo sobre Koselleck constante do Quarto Volume de meu livro 'Teoria da História" (Petrópolis: Editora Vozes, 2011).

Começaremos por lembrar que foi em sua célebre obra 'Futuro Passado', publicada em 1979, que Reinhart Koselleck deu forma mais acabada à sua singular perspectiva de que cada Presente não apenas reconstrói o Passado a partir de problematizações geradas na sua atualidade – tal como propunham os Annales e outras correntes historiográficas do século XX – mas também de que cada Presente ressignifica tanto o Passado (referido na conceituação de Koselleck como “campo da experiência”) como o Futuro (referido conceitualmente como “horizonte de expectativas”). Mais ainda, para Koselleck cada Presente concebe também de uma nova maneira a relação entre Futuro e Passado, ou seja, a assimetria entre estas duas instâncias da temporalidade, e não é por acaso que o título de sua mais conhecida coletânea de ensaios é Futuro Passado – contribuição à semântica dos tempos históricos (1979).

Constitui a contribuição mais notável de Koselleck, para a Teoria da História, a apurada percepção desta tensão que sempre se estabelece entre o ‘espaço de experiência’ e o ‘horizonte de expectativas’ – uma tensão que é própria da elaboração do conhecimento historiográfico e mesmo das múltiplas leituras sobre o fenômeno da temporalidade que vão surgindo em cada época, inclusive ao nível das pessoas comuns que vivenciam os padrões disponíveis de sensibilidade diante do tempo que lhes são oferecidos no momento em que vivem. Vamos discutir esta base conceitual, pois apenas a partir dela poderemos recolocar com as devidas proporções as reflexões de Koselleck acerca da “ruptura entre presente e Passado” nos tempos contemporâneos.

A “experiência” e a “expectativa” são apresentadas por Koselleck como duas categorias históricas (duas categorias para uso da Teoria da História, melhor dizendo) que “entrelaçam passado e futuro” (KOSELLECK, 2006, p.308). É oportuno salientar que tem sido considerada uma das mais importantes contribuições historiográficas recentes este esclarecimento koselleckiano, através das categorias da experiência e da expectativa, de que cada uma das temporalidades – o Passado, o Presente e o Futuro – pode imaginariamente se alterar, contrair ou se expandir conforme cada época ou sociedade, modificando-se também a maneira como são pensadas e sentidas as relações entre eles.

Vamos entender, antes de mais nada, o próprio sistema conceitual proposto por Koselleck para lidar com as três temporalidades (Passado, Presente, Futuro). Porque um “espaço de experiência”; e porque um “horizonte de expectativas”? A experiência pertence ao Passado que se concretiza no Presente, de múltiplas maneiras: através da Memória, dos Vestígios, das Permanências e, para os historiadores, das fontes históricas. Talvez não haja definição mais precisa do que aquela que é trazida pelo próprio Koselleck:


“A experiência é o passado atual, aquele no qual acontecimentos foram incorporados e podem ser lembrados. Na experiência se fundem tanto a elaboração racional quanto as formas inconscientes de comportamento, que não estão mais, que não precisam estar mais presentes no conhecimento. Além disso, na experiência de cada um, transmitida por gerações e instituições, sempre está contida e é preservada uma experiência alheia. Neste sentido, também a história é desde sempre concebida como conhecimento de experiências alheias” (KOSELLECK, 2006, p.309-310).


Já as expectativas – que visam o Futuro – correspondem a todo um universo de sensações e antecipações que se referem ao que ainda virá. Nossos medos e esperanças, nossas ansiedades e desejos, nossas apatias e certezas, nossas inquietude e confianças – tudo o que aponta para o futuro, todas as nossas expectativas, fazem parte deste “horizonte de expectativas”. As expectativas, além disto, não apenas são constituídas pelas formas de sensibilidade com relação ao futuro que se aproxima, mas também pela curiosidade a seu respeito e pela análise racional que o visa. A expectativa, enfim, é tudo aquilo que hoje (ou em um determinado Presente) visa o Futuro, crivando-o das sensações as mais diversas. É por isto que Koselleck lembra que, tal como a experiência (esta herança do passado) se realiza no Presente, “também a expectativa se realiza no hoje”, constituindo-se, portanto, em um futuro presente.

Embora a experiência associe-se comumente ao Passado Presente, e a expectativa ao Futuro Presente, é importante atentar para a já mencionada afirmação de Koselleck de que estas duas categorias “entrelaçam o Futuro e o Passado”. Elas não se opõem uma à outra, como em uma dicotomia qualquer; e de fato “experiência” e “expectativa” estão sempre prontas a repercutir uma na outra. São categorias complementares, visto que a experiência abre espaços para um certo horizonte de expectativas. Mais ainda, uma experiência ou o ‘registro de uma experiência’ referido a um passado remoto pode produzir, em outra época, expectativas relacionadas ao futuro. Koselleck, no texto mais elucidativo acerca deste sistema conceitual, fornece um exemplo extraído da própria história conhecida. O exemplo é auto-esclarecedor:


“Podemos citar um exemplo simples: a experiência da execução de Carlos I abriu, mais de um século depois, o horizonte de expectativas de Turgot, quando ele insistiu com Luís XVI que realizasse as reformas que o haveriam de preservar de um destino semelhante. O alerta de Turgot ao rei não encontrou eco. Mas entre a Revolução Inglesa Passada e a Revolução Francesa futura foi possível descobrir e experimentar uma relação temporal que ia além da mera cronologia. A história concreta amadurece em meio a determinadas experiências e determinadas expectativas” (KOSELLECK, 2006, p.308-309).


Outro aspecto particularmente interessante relaciona-se aos dois conceitos que se colocam a “experiência” e “expectativa”. Tentemos compreender porque um “espaço de experiência” e um “horizonte de expectativas”. A partir dos conceitos fundamentais de Koselleck, vamos construir uma possibilidade de explicação e entendimento de como funcionam as imagens do “espaço” e do “horizonte” nestas duas noções criadas por Koselleck para favorecer uma compreensão mais complexas acerca das temporalidades.

O “Passado Presente” pode melhor ser representado como um espaço porque concentra um enorme conjunto de coisas já conhecidas. Pensemos na figura acima como uma possibilidade de representação. Ela é composta de uma linha horizontal, que representará o horizonte de expectativas, e de um semicírculo colado a esta, que representará o campo de experiências. Existe uma infinita região do Passado que não é conhecida, e que, na verdade, jamais será conhecido. Podemos entender este Passado incognoscível, do qual jamais saberemos nada a respeito, como estando fora do semi-círculo. Aquilo que não deixou memória, ou cujas memórias já pereceram; aquilo que não deixou vestígios, nem fontes para os historiadores; aquilo que não está materializado no presente a partir das permanências, das continuidades, da língua, dos rituais ainda praticados, dos hábitos adquiridos, tudo isto faz parte de uma experiência perdida, que se situa fora do semicírculo. O que está dentro do semicírculo, contudo, corresponde ao “espaço de experiência”. Tudo o que ficou do que um dia foi vivido, e se projeta hoje no presente de alguma maneira, está concentrado neste espaço que é fundamental para a vida, e particularmente vital para os historiadores – pois estes só podem acessar o que foi um dia vivido através deste espaço de experiências que se aglomeram sob formas diversas, e dos quais eles extraem as suas fontes históricas. Tal como esclarece Koselleck, a experiência elabora acontecimentos passados e tem o poder de torná-los presentes, e neste sentido está “saturada de realidade” (2006, p.312) .

Pode-se pensar ainda na transferência de elementos do “campo de experiência” para aquele espaço indefinido do passado que já se torna inacessível. Memórias podem se perder, fontes podem se deteriorar e se tornarem ilegíveis, arquivos podem se incendiar, rituais podem deixar de serem praticados e tradições podem passar a não mais serem cultivadas. Quando morre um indivíduo, certamente o mundo perde para este espaço exterior algo do que poderia ser conhecido, do que estava efemeramente situado dentro do semicírculo e que jamais poderá ser recuperado. A História Oral, uma modalidade mais recente das ciências históricas, apresenta, aliás, uma conquista extremamente importante para a historiografia, e mesmo para a humanidade. Através desta abordagem histórica, é possível fixar o que um dia irá perder, pois as memórias podem ser registradas em depoimentos, gravados ou anotados, e as visões e percepções de mundo de indivíduos que um dia irão perecer também podem encontrar o seu registro. É possível imaginar que algo que também parecia estar no espaço exterior também venha um dia para dentro do semicírculo, nos momentos em que os historiadores descobrem novas fontes, ou mesmo novas técnicas para extrair de fontes já conhecidas elementos que antes não pareciam fazer parte do “espaço de experiência”.

Qualquer Passado, qualquer coisa que hoje está no interior deste semicírculo que é o “espaço de experiência” ou o “Passado Presente”, assim como ainda aquilo o que se perdeu para fora dele mas que um dia também foi vivido, já correspondeu outrora a um Presente. Nosso presente, cada instante que vivenciamos, logo se tornará um passado, e mesmo ocorrendo com o futuro que ainda não conhecemos. Por isto mesmo, a cada segundo, a cada novo presente, o espaço de experiência se transforma. O que podemos acessar de um vivido e de uma experiência que nos chega do passado revolve-se constantemente, reapresentando-se a cada vez de uma nova maneira . As próprias experiências já adquiridas podem se modificar com o tempo, e Koselleck dá o exemplo dos acontecimentos relacionados à ascensão do Nazismo, em 1933, entre os quais o incêndio criminoso do Parlamento Alemão. “Os eventos de 1933 aconteceram de uma vez por todas, mas as experiências baseadas neles podem mudar com o correr do tempo; as experiências se superpõem, impregnam-se umas das outras” (KOSELLECK, 2006, p.312-313) .

Quanto ao “Futuro Presente” (este Futuro que ainda não ocorreu, mas cuja proximidade ou distância repercute no Presente sob a forma das mais diversas expectativas), este é representável por uma linha. Na verdade, é representado por uma linha porque é efetivamente o que está para além desta linha, correspondendo àquilo que ainda não é conhecido. Temos apenas uma “expectativa” sobre o futuro, mas efetivamente não podemos dizer como ele será. Por isso a metáfora do horizonte – o extremo limite que se oferece à visão, e para além do qual sabemos que há algo, mas não sabemos exatamente o que é. Sempre que nos aproximamos do horizonte, ele recua, de modo que nunca deixará de persistir como uma linha além da qual paira o desconhecido, que logo se tornará conhecido porque se converterá em presente. Conforme as próprias palavras de Koselleck, “horizonte quer dizer aquela linha por trás da qual se abre no futuro um novo espaço de experiência, mas um espaço que ainda não pode ser contemplado; a possibilidade de se descobrir o futuro, embora os prognósticos sejam possíveis, se depara com um limite absoluto, pois ela não pode ser experimentada” (KOSELLECK, 2006, p.311).

Entre estas duas imagens se comprime o Presente: um fugidio momento de difícil de representação visual que parece se comprimir entre o espaço concentrado que representa o Passado (e logo se incorporar a ele) e a linha fugidia que representa o Futuro – esta linha eternamente móvel (pois rapidamente o que ele traz, tão logo se torne conhecido, transforma-se por um segundo em Presente e logo depois passa a ser englobado pelo interior do semicírculo que corresponde ao “espaço de experiência” (quando não se perde no Passado incognoscível situado fora do semicírculo).

É importante ressaltar ainda que o “Passado Presente” e o “Futuro Presente”, ou o “campo de experiências” e o “horizonte de expectativas”, não constituem conceitos simétricos – ou “imagens especulares recíprocas” tal como alerta Koselleck (2006, p.310). Imaginariamente, o campo de experiência, o Presente, e o horizonte de expectativas podem produzir as relações mais diversas, e assim ocorre no decorrer da própria história. Há épocas em que o tempo parece aos seus contemporâneos se desenrolar lentamente, e outras em que parece estar acelerado, em função da rapidez das transformações políticas ou tecnológicas . Existem períodos da história, crivados de movimentos revolucionários, nos quais os agentes que deles participam desenvolvem a sensação de que o futuro é aqui agora, tendo se fundido ao presente. Em outros, inclusive, o futuro parece permanecer “atrelado ao passado”, tal como naqueles em que as expectativas do futuro não se referem a este mundo, mas sim a um outro que será escatologicamente trazido pela redenção dos tempos . As fusões e clivagens que se estabelecem imaginariamente entre as três temporalidades – Passado, Presente e Futuro – podem aparecer ao ambiente mental predominante em cada época, e às consciências daqueles que vivem nestas várias épocas, de maneiras bem diferenciadas.

Para Koselleck, o tempo histórico é ditado, de forma sempre diferente, pela tensão entre expectativas e experiência (2006, p.313). Há por exemplo ações e práticas humanas que são constituídas precisamente desta tensão, tal como ocorre com a elaboração de “prognósticos”, que sempre exprimem uma expectativa a partir de um certo campo de experiências (portanto, a partir de um “diagnóstico”). Diz-nos também o historiador alemão que “o que estende o horizonte de expectativa é o espaço de experiência aberto para o futuro”, o que se pode dar de múltiplas maneiras, conforme a relação estabelecida entre as duas instâncias (2006, p.313). Como se disse, em cada época pode haver uma tendência distinta a reavaliar a tensão entre o espaço de experiência e o horizonte de expectativas (ou entre o Passado e o Futuro, através da mediação do Presente). Apenas para ilustrar com uma das hipóteses de Koselleck, na modernidade “as expectativas passam a distanciar-se cada vez mais das experiências feitas até então” (2006, p.314); em contrapartida, em todo o ambiente mental predominante no ocidente até meados do século XVII, o futuro parecia permanecer fortemente atrelado ao próprio passado (2006, p.315) . Poderíamos mesmo pensar em duas representações para os dois momentos da história das sensibilidades européias em relação ao Tempo, já que, no período propriamente moderno, “o espaço de experiência deixa de estar limitado pelo horizonte de expectativa; os limites de um e de outro se separam”

O aparato conceitual desenvolvido por Koselleck foi incorporado pela historiografia como aquilo que de mais eficaz se produziu até hoje para operacionalizar uma visão historiográfica do tempo. Reomenda-se a leitura dos livros de Koselleck, particularmente 'Futuro Passado', já traduzido para o português.

Um texto mais completo sobre Koselleck pode ser encontrado em:
BARROS, José D'Assunção. Teoria da História - volume 5: Acordes Historiográficos. Petrópolis: Editora Vozes, 2011.


_________________________

Referências:

KOSELLECK, Reinhart. Futuro Passado – contribuição à semântica dos tempos históricos. Rio de Janeiro: Contraponto, 2006 [original: 1979]

Um comentário:

  1. Ótimo texto.

    Mas tenho problema para entender esta parte do livro “o espaço de experiência deixa de estar limitado pelo horizonte de expectativa; os limites de um e de outro se separam”. Não consigo visualizar como que antes do período moderno o horizonte de expectativa limitava o espaço de experiência...

    grande abraço e parabéns.

    ResponderExcluir