Vamos dar um outro exemplo de escola historiográfica, na história da historiografia européia. Este exemplo será oportuno, pois contrasta com o exemplo do movimento dos Annales em pelo menos um aspecto. Enquanto os historiadores ligados aos Annales possuíam as mais diversificadas tendências teóricas, e desenvolviam variadas orientações metodológicas em seus trabalhos, os historiadores ligados à "Escola Britânica" do Marxismo possuíam a singularidade de se autodefinirem todos no interior de um único paradigma: o Materialismo Histórico.
Como dizíamos no texto sobre as "escolas históricas", existem escolas podem que reunir sob a sua identidade historiadores pertencentes aos vários paradigmas teóricos, mas também podem existir escolas que se localizam no interior de um único paradigma ou orientação teórica. No âmbito do paradigma do Materialismo Histórico, por exemplo, não são raras as escolas mais específicas de historiadores.
A "Escola Britânica" do Marxismo, também chamada de "Escola Inglesa", reuniu, na segunda metade do século XX, historiadores de orientação relacionada ao materialismo histórico. Todos eles viviam em países ligados ao Reino Unido. Muitos viviam na Inglaterra, tal como ERic Hobsbawm (ainda vivo), Edward Thompson (1924-1993) e Christopher Hill (1912-2003), e havia outros, como o australiano Gordon Childe (1892-1957), que viviam em outros países ligados à comunidade britânica. Um outro aspecto que nos habilita a nos referirmos a este grupo de historiadores como uma escola é o fato de que eles desenvolviam trabalhos coletivos, e tinham um veículo importante para a divulgação de trabalhos dos historiadores do grupo, que era a revista inglesa "Past em Present". Já fizemos notar que as "escolas históricas", com frequência, possuem uma revista sob sua administração, através da qual podem produzir ou motivar a produção de uma Historiografia correspondente ao seu programa de ação e pensamento.
Todos os historiadores da "Escola Britânica" relacionavam-se a um projeto em comum de renovação do Materialismo Histórico, cuja principal característica era a valorização da "Cultura", não mais postulada como mero epifenômeno da "Economia". Destarte, cada um destes historiadores continuava trabalhando com os pressupostos fundamentais do Materialismo Histórico: Dialética, Materialismo, Historicisdade Radical. Utilizavam também, como todos os historiadores materialistas históricos, conceitos básicos para este paradigma: "modo de produção", "luta de classes", "classe social", "revolução". A questão é que estes historiadores trabllham de modo mais flexível com estes conceitos, evitando esquematismos muito simples e procurando apreender uma totalidade mais complexa da vida social.
A renovação dos estudos culturais trazida pela Escola Inglesa tem sido fundamental para repensar o Materialismo Histórico nos dias de hoje – particularmente para flexibilizar o já desgastado esquema de uma sociedade que ainda era vista, por muitos marxistas, a partir de uma cisão entre infra-estrutura e superestrutura. Com a Escola Inglesa do Marxismo, o mundo da Cultura passa a ser examinado como parte integrante do “modo de produção”, e não como um mero reflexo da infra-estrutura econômica de uma sociedade. Existiria, de acordo com esta perspectiva, uma interação e uma retro-alimentação contínua entre a Cultura e as estruturas econômico-sociais de uma Sociedade, e a partir deste pressuposto desaparecem aqueles esquemas simplificados que preconizavam um determinismo linear e que, rigorosamente falando, também já havia sido criticado por Antonio Gramsci, outro historiador marxista especialmente preocupado com o campo cultural. Será oportuno citar uma remarcável passagem de Thompson:
“Uma divisão teórica arbitrária como esta, de uma base econômica e uma superestrutura cultural, pode ser feita na cabeça e bem pode assentar-se no papel durante alguns momentos. Mas não passa de uma idéia na cabeça. Quando procedemos ao exame de uma sociedade real, seja qual for, rapidamente descobrimos (ou pelo menos deveríamos descobrir) a inutilidade de se esboçar a respeito de uma divisão assim”.
Thompson rejeita, inclusive, a habitual “prioridade interpretativa atribuída ao “Econômico”. Se algures já se disse que “sem produção não há história”, o historiador inglês acrescenta, com alguma ironia: “sem cultura, não há produção” THOMPSON, 2001, p.258). Por vezes, não seria mesmo possível separar economia e cultura com relação a certos processos ou fatos históricos, mesmo já referentes ao período moderno.
O exemplo mais brilhante desta impossibilidade de separar economia e cultura no estudo de alguns processos históricos específico foi dado pelo próprio Edward Thompson em suas pesquisas sobre as revoltas populares na Inglaterra no século XVIII, que foram expressas em um texto escrito em 1971 com o título “A Economia Moral da multidão inglesa do século XVIII”. Thompson demonstra que, neste contexto social, era em nome dos princípios morais que se faziam as queixas, confiscos de grãos e pães, e inúmeros outros processos pertinentes ao mundo econômico e também à Política . A Economia, neste contexto social e relativamente a estes diversos processos, não era portanto separável de certas concepções morais que circulavam na sociedade em questão. Economia e Moral, e portanto Economia e Cultura, não eram separáveis. Separá-las historiograficamente seria equivalente a perder a possibilidade de compreender aqueles processos históricos. Em vista disto, Thompson introduz um novo conceito no âmbito das reflexões historiográficas: o de “Economia Moral” (na verdade, conforme indica Thompson, a expressão já havia sido empregada na própria Inglaterra do século XVIII, em uma polêmica de Bronterre O’Brien contra os autores vinculados à Economia Política). Posteriormente, o conceito foi incorporado às análises historiográficas e passou a ser utilizados por historiadores para a análise de contextos diversos (SCOTT, 1976).
Outro historiador notável da Escola Britânica do Marxismo foi Christopher Hill, que trouxe grande impacto aos meios teóricos ligados ao Materialismo Histórico ao propor uma leitura inédita da Revolução Inglesa de 1640, com o livro "O Mundo de Ponta-Cabeça".Nesta obra, Hill propõe uma hipótese inusitada sobre aquele processo histórico: a de que a Revolução Inglesa não foi um processo único, unilinear, homogêneo, ou sequer uma única revolução. Na verdade, teriam ocorrido, durante os acontecimentos que ficaram conhecidos como Revolução Inglesa, duas revoluções paralelas, tensionando-se uma contra a outra. a revolução que representava os interesses da burguesia acabou por prevalecer e por apagar a outra, a revolução dos grupos radicais, determinando consequentemente os rumos do processo revolucionário inglês a partir do triunfo da ética protestante e dos interesses burgueses. Contudo, teria existido uma outra revolução, radical – representada por grupos como os diggers, ranters, levellers, quacres – esta sim propondo uma radical reviravolta da sociedade. É este olhar para uma história esquecida, apagada por uma historiografia que trouxe os vencedores para o centro do palco, o que Christopher Hill procura trazer. Aqui temos outro aspecto importante da escola Britânica do Marxismo, que é uma especial atenção ao que Thompson chamou de uma “História Vista de Baixo”.
É desnecessário, no Brasil, apresentar o terceiro grande nome da Escola Britânica do Marxismo: Eric Hobsbawm. Com sua série de livros intitulados "eras" - a "Era das Revoluções", a "Era dos Impérios" e a "Era dos Extremos" - Hobsbawm tornou-se grande sucesso no meio editorial. Tento alcançado uma grande longevidade, viveu todo o século XX, o que resultou em outro livro, intitulado "Tempos Interessantes - Uma Vida no século XX", que permite mostrar um historiador que assiste à passagem de sucessivas eras neste século no qual o tempo parece ter se comprimido tal a velocidade das transformações políticas, tecnológicas e ambientais nele implicadas. Hobsbawm também traz a marca da Escola Britânica, escrevendo ensaios teóricos "sobre a História" (1998), e também revelando sua faceta de historiador cultural na série de críticas sobre o Jazz que publicou durante anos, e que resultou finalmente no livro intitulado "História Social do Jazz".
Conforme podemos ver, sem abrir mão dos elementos essenciais do paradigma do Materialismo Histórico, os historiadores da Escola Britânica o renovam,rediscutindo seus conceitos, e trazendo um novo olhar sobre a Cultura e sobre a "História Vista de Baixo". Constituem um exemplo oportuno de escola que se desenvolve no interior de um único paradigma.
*Este texto foi adaptado de um trecho do Terceiro Volume do meu livro "Teoria da História" [BARROS, José D'Assunção. Teoria da História - volume 3: os Paradigmas Revolucionários. Petrópolis: Editora Vozes, 2011).
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Outras Indicações Bibliográficas.
HILL, Christopher. O Mundo de Ponta-Cabeça - idéias radicais durante a Revolução Inglesa de 1640. São Paulo: Companhia das Letras, 1987.
HOBSBAWM, Eric. A Era dos Extremos: o Breve Século XX (1914-1991). São Paulo: Companhia das Letras: São Paulo, 1994.
HOBSBAWM, Eric. Tempos Interessantes: Uma vida no século XX. São Paulo: Companhia das Letras, 2002.
HOBSBAWM, Eric. História Social do Jazz. Rio de Janeiro: Paz e Terra, São Paulo, 1990.
HOBSBAWM, Eric. Sobre História. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.
THOMPSON, Edward Palmer. A miséria da teoria ou um planetário de erros: uma critica ao pensamento de Althusser. Rio de Janeiro: Zahar, 1981.
THOMPSON, Edward Palmer. As peculiaridades dos ingleses e outros artigos. Campinas : UNICAMP,2001.
THOMPSON, Edward Palmer. Costumes em comum. Estudos sobre a cultura popular tradicional. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.
THOMPSON, Edward Palmer. A Formação da Classe Trabalhadora Inglesa. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987
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sábado, 1 de janeiro de 2011
sexta-feira, 31 de dezembro de 2010
Materialismo Histórico não é o mesmo que Marxismo, e ambos distinguem-se do pensamento de Marx
Com o último texto, completamos os elementos iniciais para a compreensão deste terceiro paradigma que surge a partir do período em que a História passa a se postular como um saber de tipo científico. Outros paradigmas, e outras correntes teóricas, e também inúmeras variações nos paradigmas já mencionados, e combinações entre eles, viriam depois. Por ora, encerraremos este bloco inicial, e brevemente estaremos discutindo um outro conceito importante para a Teoria da História, que é o conceito de "Escola" (escola histórica, ou 'escola historiográfica). Gostaríamos, todavia, de encerrar o bloco com um alerta importante acerca do paradigma do Materialismo Histórico.
Não raramente, “Materialismo Histórico” e “Marxismo” são utilizados por autores vários como expressões sinônimas. Esta relação, contudo, deve ser antes de mais nada problematizada, e nos nossos textos rejeitaremos qualquer confusão ou sobreposição entre os dois termos. A distinção entre “marxismo” e “materialismo histórico” deve ser feita antes mesmo de entrarmos no mérito de que o próprio campo teórico do Materialismo Histórico, inaugurado em meados do século XIX por Karl Marx (1818-1883) e Friedrich Engels (1820-1895), encontrou muitos desdobramentos e variações posteriores, assim como assistiu a transformações bem significativas com relação a alguns dos pressupostos básicos propostos pelos dois fundadores.
Desta forma, antes mesmo de adentrar a riqueza deste campo teórico, é preciso desde já considerar a diferença entre aquele modelo de ação política que mais tarde ficaria conhecido como Marxismo-Leninismo, e que também geraria suas variações, e o Materialismo Histórico enquanto paradigma, método e abordagem teórica para a compreensão dos processos históricos. O “marxismo-leninismo” é um programa de ação política que visa estabelecer uma sociedade comunista a partir de certas ações, que também são muito discutidas em termos de quais seriam as mais adequadas (luta armada, ditadura do proletariado, mobilização de operários ou de camponeses, aliança inicial com a burguesia, participação na política tradicional). Esta diversidade de posições com relação a questões específicas gera muitas correntes no interior do próprio marxismo-leninismo.
Aliás, deve-se repetir o óbvio: a perspectiva de estabelecimento de uma sociedade socialista não é necessariamente ligada a um programa de ação marxista, e muito menos ao marxismo-leninismo. Todo marxismo-leninismo visa a uma sociedade comunista; mas nem todo programa ou pensamento que visa uma sociedade comunista é marxista-leninista (há inúmeras variações, dentro do marxismo, e fora dele também, de correntes que visam o socialismo, tais como o moderno viés da social-democracia, o anarquismo, e outros).
Outro aspecto importante é que, embora o “marxismo-leninismo” tenha assumido como filosofia e perspectiva historiográfica o Materialismo Histórico (adaptando-o a seus objetivos políticos), pode-se perfeitamente pensar correntes do paradigma do Materialismo Histórico (como uma forma de analisar e escrever a história) que não necessariamente se vinculem a qualquer programa de ação política marxista, e que, até mesmo, não visem o socialismo como sociedade ideal a ser atingida. São muito discutidas, no seio de todo um conjunto de autores que se autodefinem historiograficamente como ligados à perspectiva do Materialismo Histórico, temáticas que indagam sobre se o socialismo em alguma de suas formas sócio-políticas, ou o comunismo em algum de seus modelos econômicos possíveis, devem ser mesmo vistos como um telos (um “fim”) a ser alcançado na história, assim como se discute se este modo de organização socialista do mundo humano ocorrerá necessariamente um dia ou não.
O primeiro ponto importante, então, é separar o Materialismo Histórico - enquanto paradigma historiográfico que se oferece como alternativa para a compreensão da história e para a elaboração do conhecimento historiográfico - do “Marxismo” propriamente dito, no sentido de um certo programa de ação política. De igual maneira, dentro do próprio âmbito das idéias de Marx e Engels, devemos distinguir os princípios que se referem ao Materialismo Histórico como método de compreensão histórica – na verdade como uma nova visão teórico-metodológica da História – em relação às opiniões pessoais e particulares de Marx ou Engels com relação a certos aspectos como os destinos históricos das sociedades européias, o advento do Socialismo, a necessidade da implantação de certo modelo de ação política, ou as formas de engajamento do historiador em uma transformação social. Há mesmo muitas opiniões de Marx e Engels nitidamente datadas, que só poderiam ser pensadas para um contexto social específico, e que hoje não mais se aplicariam. E há outras que correspondem a escolhas pessoais destes autores que não necessariamente são inerentes ao paradigma do Materialismo Histórico.
Elaborei um capítulo sobre o pensamento de Marx, no Volume Quatro de "Teoria da História", que procura desenvolver a idéia de que o pensamento de Marx, fundador do paradigma do Materialismo Histórico conjuntamente com Engels, não pode ser confundido com o próprio paradigma do Materialismo Histórico. Este último, embora tenha sido fundado por Marx e Engels nas suas bases iniciais, é obra coletiva, composta não apenas por Marx e Engels, mas também por inúmeros filósofos, sociólogos, antropólogos, economistas, geógrafos e historiadores que os sucedram. O paradigma do Materialismo Histórico constitui-se, por isso, de um um universo com muitas alternativas internas.
Além disso, há posições específicas de Marx que não constituem elementos inerentes (necessários) ao núcleo mínimo do paradigma Materialista Histórico. Como qualquer fundador de um paradigma, Marx se destaca - enquanto autor - do paradigma que ajudou a fundar. A complexa identidade teórica de Marx, segundo postulo, superpõe-se como possibilidade à base irredutível do paradigma do Materialismo Histórico, mas não se confunde com ela.
Sobre isto, ver o último capítulo do Quarto Volume de "Teoria da História" (BARROS, José D'Assunção. Teoria da História - volume 4: Acordes Historiográficos. Petrópolis: editora Vozes, 2011).
Não raramente, “Materialismo Histórico” e “Marxismo” são utilizados por autores vários como expressões sinônimas. Esta relação, contudo, deve ser antes de mais nada problematizada, e nos nossos textos rejeitaremos qualquer confusão ou sobreposição entre os dois termos. A distinção entre “marxismo” e “materialismo histórico” deve ser feita antes mesmo de entrarmos no mérito de que o próprio campo teórico do Materialismo Histórico, inaugurado em meados do século XIX por Karl Marx (1818-1883) e Friedrich Engels (1820-1895), encontrou muitos desdobramentos e variações posteriores, assim como assistiu a transformações bem significativas com relação a alguns dos pressupostos básicos propostos pelos dois fundadores.
Desta forma, antes mesmo de adentrar a riqueza deste campo teórico, é preciso desde já considerar a diferença entre aquele modelo de ação política que mais tarde ficaria conhecido como Marxismo-Leninismo, e que também geraria suas variações, e o Materialismo Histórico enquanto paradigma, método e abordagem teórica para a compreensão dos processos históricos. O “marxismo-leninismo” é um programa de ação política que visa estabelecer uma sociedade comunista a partir de certas ações, que também são muito discutidas em termos de quais seriam as mais adequadas (luta armada, ditadura do proletariado, mobilização de operários ou de camponeses, aliança inicial com a burguesia, participação na política tradicional). Esta diversidade de posições com relação a questões específicas gera muitas correntes no interior do próprio marxismo-leninismo.
Aliás, deve-se repetir o óbvio: a perspectiva de estabelecimento de uma sociedade socialista não é necessariamente ligada a um programa de ação marxista, e muito menos ao marxismo-leninismo. Todo marxismo-leninismo visa a uma sociedade comunista; mas nem todo programa ou pensamento que visa uma sociedade comunista é marxista-leninista (há inúmeras variações, dentro do marxismo, e fora dele também, de correntes que visam o socialismo, tais como o moderno viés da social-democracia, o anarquismo, e outros).
Outro aspecto importante é que, embora o “marxismo-leninismo” tenha assumido como filosofia e perspectiva historiográfica o Materialismo Histórico (adaptando-o a seus objetivos políticos), pode-se perfeitamente pensar correntes do paradigma do Materialismo Histórico (como uma forma de analisar e escrever a história) que não necessariamente se vinculem a qualquer programa de ação política marxista, e que, até mesmo, não visem o socialismo como sociedade ideal a ser atingida. São muito discutidas, no seio de todo um conjunto de autores que se autodefinem historiograficamente como ligados à perspectiva do Materialismo Histórico, temáticas que indagam sobre se o socialismo em alguma de suas formas sócio-políticas, ou o comunismo em algum de seus modelos econômicos possíveis, devem ser mesmo vistos como um telos (um “fim”) a ser alcançado na história, assim como se discute se este modo de organização socialista do mundo humano ocorrerá necessariamente um dia ou não.
O primeiro ponto importante, então, é separar o Materialismo Histórico - enquanto paradigma historiográfico que se oferece como alternativa para a compreensão da história e para a elaboração do conhecimento historiográfico - do “Marxismo” propriamente dito, no sentido de um certo programa de ação política. De igual maneira, dentro do próprio âmbito das idéias de Marx e Engels, devemos distinguir os princípios que se referem ao Materialismo Histórico como método de compreensão histórica – na verdade como uma nova visão teórico-metodológica da História – em relação às opiniões pessoais e particulares de Marx ou Engels com relação a certos aspectos como os destinos históricos das sociedades européias, o advento do Socialismo, a necessidade da implantação de certo modelo de ação política, ou as formas de engajamento do historiador em uma transformação social. Há mesmo muitas opiniões de Marx e Engels nitidamente datadas, que só poderiam ser pensadas para um contexto social específico, e que hoje não mais se aplicariam. E há outras que correspondem a escolhas pessoais destes autores que não necessariamente são inerentes ao paradigma do Materialismo Histórico.
Elaborei um capítulo sobre o pensamento de Marx, no Volume Quatro de "Teoria da História", que procura desenvolver a idéia de que o pensamento de Marx, fundador do paradigma do Materialismo Histórico conjuntamente com Engels, não pode ser confundido com o próprio paradigma do Materialismo Histórico. Este último, embora tenha sido fundado por Marx e Engels nas suas bases iniciais, é obra coletiva, composta não apenas por Marx e Engels, mas também por inúmeros filósofos, sociólogos, antropólogos, economistas, geógrafos e historiadores que os sucedram. O paradigma do Materialismo Histórico constitui-se, por isso, de um um universo com muitas alternativas internas.
Além disso, há posições específicas de Marx que não constituem elementos inerentes (necessários) ao núcleo mínimo do paradigma Materialista Histórico. Como qualquer fundador de um paradigma, Marx se destaca - enquanto autor - do paradigma que ajudou a fundar. A complexa identidade teórica de Marx, segundo postulo, superpõe-se como possibilidade à base irredutível do paradigma do Materialismo Histórico, mas não se confunde com ela.
Sobre isto, ver o último capítulo do Quarto Volume de "Teoria da História" (BARROS, José D'Assunção. Teoria da História - volume 4: Acordes Historiográficos. Petrópolis: editora Vozes, 2011).
O conceito de Modo de Produção
Em texto anterior, sintetizamos os três elementos fundamentais que constituem a base efetiva do Materialismo Histórico como um paradigma historiográfico: Materialismo, Dialética, Historicidade Radical. No último texto, esclarecemos o aspecto da Dialética, retomando também outros autores anteriores a Marx, como Hegel, que se valeram deste conceito. Ressaltamos, contudo, que a dialética proposta por Hegel era uma dialética idealista, enquanto a dialética proposta por Marx seria uma dialética materialista. Dialética e Materialismo se unem, portanto, no pensamento de Marx e na base daquilo que viria a se constituir neste novoparadigma historiográfico que é o Materialismo Histórico. No presente texto, vamos abordar mais especificamente o conceito marxista que permite essa junção entre Materialismo e Dialética: o Modo de Produção.
A idéia de considerar o “Modo de Produção” como ponto de partida para as análises históricas e sociológicas foi a grande novidade trazida por Marx e Engels, no que concerne particularmente à sua contribuição para as futuras ciências sociais e humanas . O conceito, certamente, beneficiou-se de inúmeras redefinições face ao desenvolvimento de trabalhos historiográficos mais específicos. Mas podemos entendê-lo inicialmente como a combinação das “forças de produção” e “relações de produção” correspondentes a certo período ou sociedade historicamente localizada, sendo que estes dois fatores – as “forças de produção” e as “relações de produção” – estão fadados a se tornarem contraditórios no processo dialético, apesar de terem sido tão bem ajustados no momento nascente do modo de produção, já que as ‘relações de produção’ são geradas no interior de uma determinada formação social precisamente pelas ‘forças de produção’.
É o próprio Marx quem nos diz, no Prefácio de Contribuição para a Crítica da Economia Política (1859), que as ‘relações de produção’, que um dia foram o motor das ‘forças de produção’, tornam-se o seu entrave. Neste momento, ou no momento de maior acirramento da contradição, estas duas realidades mal ajustadas precisam fazer o seu acerto dialético. As ‘forças de produção’ em expansão não comportam mais a reação e resistência que lhes é imposta pelas ‘relações de produção’ imobilizadas, retrógradas, inadequadas diante de uma realidade que já se modificou. Sobrevém, então, um momento de “revolução social”. A Tese confrontou-se com a sua Antítese, e ambas precisarão ser superadas pela Síntese, que será o ponto de partida para um novo ‘modo de produção’. Este salto de qualidade para o novo momento é na história provocado pela “revolução”, um conceito que também é apropriado pela concepção materialista da História .
Em exemplos práticos, vejamos o que seria um ‘modo de produção’, as ‘forças de produção’ e as ‘relações de produção’. Retomemos o exemplo do mundo medieval. O chamado ‘modo de produção feudal’ era constituído por forças de produção e relações de produção bem específicas. No campo das forças de produção teríamos toda a materialidade e força vital, toda a tecnologia e modos de apropriação da natureza e otimização do trabalho de que dispõe o homem medieval para reproduzir a existência de sua sociedade diante das condições que lhe é oferecida. Constituem a totalidade das ‘forças de produção’ os ‘instrumentos de produção’ – como o arado ou a charrua –os ‘meios de produção’, que seriam os ambientes dos quais os homens medievais poderiam extrair materiais para a sua própria vida e também transformar em ambiente para o seu trabalho, e por fim os ‘agentes de produção’, que para simplificar coincidiria com a humanidade que trabalha, no caso da Idade Média os servos (mas depois, também, os mercadores e artesãos, que virão a se constituir em agentes históricos importantes para a superação do modo de produção feudal). Também estariam incluídas no campo das ‘forças de produção’ as técnicas conhecidas pelos homens para produzir o seu trabalho ou se apropriar do meio, como o cultivo unidirecional ou o plantio alternado.
Ocorre que tudo isto – instrumentos, técnicas, meios de produção e agentes de produção – está sempre em expansão, em certos momentos uma expansão em ritmo mais lento, em outros uma expansão em ritmo mais acelerado. O arado e a charrua constituem aperfeiçoamentos nos instrumentos de produção, as técnicas de cultivo se desenvolvem e se tornam mais eficientes, os meios de produção cedem espaço para novas apropriações humanas através de arroteamentos e ocupação de florestas antes intransponíveis, e a força de trabalho se desenvolve, torna-se mais eficaz, mas também mais complexa, mais beneficiada pela interação humana. A certa altura, com a melhoria da agricultura, produz-se um excedente e, mais bem alimentada, ocorre uma melhoria na qualidade de vida, abrem-se mesmo espaços para que nem todos precisem se dedicar a uma agricultura fechada, e muitos dos camponeses que eram encarregados de fazer tarefas relacionadas ao pequeno comércio local tornam-se comerciantes, engajam-se em empresas de longa distância, autonomizam-se em novas funções; alguns se tornam artesãos; outros continuam camponeses, mas já mais inquietos com as suas condições de vida e as amarras sociais que lhes são impostas.
Estas amarras são precisamente as ‘relações de produção’. No mundo medieval elas partilhavam a humanidade em três grupos básicos, apesar de existirem também outras funções e profissões. A nobreza, dominante, ocupa-se da guerra; o clero, desempenha as funções relacionadas à vida religiosa, fundamental para o homem medieval e mesmo para a manutenção do sistema (na verdade, o próprio clero também se dividia em um alto clero, oriundo da nobreza, e categorias vindas de extratos sociais inferiores, mas de modo esquemático – de acordo com o próprio esquema medieval das “três ordens” – pode ser considerado uma segunda ordem, ao lado da nobreza). Enquanto isto, a terceira ordem, a base produtiva do triângulo trifuncional, era precisamente o mundo do trabalho, em especial os servos que produziam o sustento alimentar de toda a sociedade, de modo que no esquema ideológico medieval esta partição aparecia como a célebre divisão em “belatore, oratore e laboratore”. Este esquema mental faz parte da “ideologia” – outro conceito importante para o marxismo – e que juntamente com a arte, com o sistema jurídico, com as relações de parentesco, fará parte da superestrutura que deriva da base, do que alguns materialistas históricos chamam de infra-estrutura.
Ora, precisamente no momento em que as ‘forças de produção’ expandidas permitem que se produza um excedente, na chamada ‘fase de expansão feudal’, é que se irá produzir ou se intensificar a contradição fundamental do mundo feudal: uma produção maior do que o consumo. Esta antiga organização social, tão rigidamente estratificada, passa a não mais condizer com um mundo em expansão. Resistente às forças que se articulam a esta expansão, a organização social cedo terá de dar lugar a uma outra, que predisporá ao surgimento, no período moderno, de um mundo que se organizará em torno do mercado, em uma primeira fase do que seria mais tarde um novo modo de produção: o ‘modo de produção capitalista’.
Estes esquemas, relativamente simples, são sugeridos por Karl Marx em A Ideologia Alemã (1946), ou ao menos podem ser deduzidos de uma primeira leitura dos seus escritos. Ocorre, contudo, que o ‘modo de produção’ produzido teoricamente para uma compreensão da sociedade é apenas um modelo. Na realidade histórica efetiva este modelo não existe, da maneira como a razão o organiza. É por causa disso que nos anos 1970 surgirá o conceito de “formação social”, e o de uma “formação social específica”. Trata-se de uma mediação para a aplicação da idéia de ‘modo de produção’ a sociedades históricas mais específicas, ambientadas em um espaço sob determinadas circunstâncias, e relacionadas a especificidades e complexidades adicionais, afeitas a um dinamismo que lhe é próprio.
A noção de “formação econômico-social” surge portanto para dar conta desta mediação entre o modelo e as realidades históricas específicas, achando-se registrada no livro de Leporini e Serene (1973) que leva este título. Pierre Vilar também lança mão do novo conceito, e o utiliza de maneira peculiar. A “formação econômico-social” poderia ser caracterizada por um “modo de produção dominante”, o que pressupõe a possibilidade da permanência de traços dos modos de produção anteriores ao lado da constituição de fatores novos, que já antecipam um modo de produção futuro e contribuem decisivamente para abalar a dominação presente. Estas idéias aparecem no célebre artigo escrito para a revista dos Annales em 1973, no qual Pierre Vilar polemiza com Althusser utilizando o sugestivo título “História Marxista, história em construção” (1973, p.165-198).
Sobre a idéia de uma formação social que inclui um modo de produção dominante e persistências de períodos anteriores, será oportuno lembrar uma carta de 1868 escrita por Marx a Engels, portanto no ano seguinte à publicação de O Capital. Nesta carta – que atesta simultaneamente a riqueza do pensamento dos fundadores do Materialismo Histórico e a sua capacidade de repensar continuamente os fundamentos do campo teórico-metodológico que estavam fundando – Marx escreve a Engels, com todas as letras, que tinha bem recentemente adquirido a consciência de que as formas sociais pré-capitalistas podiam sobreviver em meio ao Capitalismo. Ou seja, praticamente depois de escrever toda a sua obra conhecida até O Capital (1867), e três anos antes de escrever sua última obra de cunho historiográfico (“A Guerra Civil na França”, 1871), Karl Marx ainda formularia um ajuste que somente seria repensado mais sistematicamente cem anos depois.
É em vista de situações como estas que freqüentemente os filósofos, historiadores e sociólogos marxistas, e também pensadores ligados a outros campos teóricos, têm retornado freqüentemente a textos de Marx que passaram despercebidos diante de obras que foram transformadas em cânones. Isso ocorreu com “O fetichismo da Mercadoria”, inspirador da Escola de Frankfurt, com os Grundrisse, inspiração para a escola Inglesa do Marxismo, e certamente ainda ocorrerá muito com a análise da correspondência de Marx e Engels com interlocutores diversos.
O conceito de "modo de produção" ainda se beneficiaria de inúmeras proposições, ao cuidado de teóricos, filósofos, sociólogos e historiadores que se vincularam à concepção do Materialismo Histórico. O paradigma do Materialismo Histórico, com seus diversos conceitos abriu-se, e abre-se ainda hoje, a uma discussão muito rica de possibilidades. Esse aspecto é importante para compreendermos que um paradigma historiográfico, e o Materialismo Histórico em particular, jamais deve ser tratado como um sistema fechado, definitivo. Um paradigma constitui uma base comum a partir da qual os praticantes de um campo de saber podem desenvolver suas concepções, criando novas alternativas no interior do paradigma.
O presente texto foi extraído do Terceiro Volume do meu livro 'Teoria da História' (BARROS, José D'Assunção. Teoria da História - volume 3: os paradigmas revolucionários. Petrópolis: Editora Vozes, 2011).
A idéia de considerar o “Modo de Produção” como ponto de partida para as análises históricas e sociológicas foi a grande novidade trazida por Marx e Engels, no que concerne particularmente à sua contribuição para as futuras ciências sociais e humanas . O conceito, certamente, beneficiou-se de inúmeras redefinições face ao desenvolvimento de trabalhos historiográficos mais específicos. Mas podemos entendê-lo inicialmente como a combinação das “forças de produção” e “relações de produção” correspondentes a certo período ou sociedade historicamente localizada, sendo que estes dois fatores – as “forças de produção” e as “relações de produção” – estão fadados a se tornarem contraditórios no processo dialético, apesar de terem sido tão bem ajustados no momento nascente do modo de produção, já que as ‘relações de produção’ são geradas no interior de uma determinada formação social precisamente pelas ‘forças de produção’.
É o próprio Marx quem nos diz, no Prefácio de Contribuição para a Crítica da Economia Política (1859), que as ‘relações de produção’, que um dia foram o motor das ‘forças de produção’, tornam-se o seu entrave. Neste momento, ou no momento de maior acirramento da contradição, estas duas realidades mal ajustadas precisam fazer o seu acerto dialético. As ‘forças de produção’ em expansão não comportam mais a reação e resistência que lhes é imposta pelas ‘relações de produção’ imobilizadas, retrógradas, inadequadas diante de uma realidade que já se modificou. Sobrevém, então, um momento de “revolução social”. A Tese confrontou-se com a sua Antítese, e ambas precisarão ser superadas pela Síntese, que será o ponto de partida para um novo ‘modo de produção’. Este salto de qualidade para o novo momento é na história provocado pela “revolução”, um conceito que também é apropriado pela concepção materialista da História .
Em exemplos práticos, vejamos o que seria um ‘modo de produção’, as ‘forças de produção’ e as ‘relações de produção’. Retomemos o exemplo do mundo medieval. O chamado ‘modo de produção feudal’ era constituído por forças de produção e relações de produção bem específicas. No campo das forças de produção teríamos toda a materialidade e força vital, toda a tecnologia e modos de apropriação da natureza e otimização do trabalho de que dispõe o homem medieval para reproduzir a existência de sua sociedade diante das condições que lhe é oferecida. Constituem a totalidade das ‘forças de produção’ os ‘instrumentos de produção’ – como o arado ou a charrua –os ‘meios de produção’, que seriam os ambientes dos quais os homens medievais poderiam extrair materiais para a sua própria vida e também transformar em ambiente para o seu trabalho, e por fim os ‘agentes de produção’, que para simplificar coincidiria com a humanidade que trabalha, no caso da Idade Média os servos (mas depois, também, os mercadores e artesãos, que virão a se constituir em agentes históricos importantes para a superação do modo de produção feudal). Também estariam incluídas no campo das ‘forças de produção’ as técnicas conhecidas pelos homens para produzir o seu trabalho ou se apropriar do meio, como o cultivo unidirecional ou o plantio alternado.
Ocorre que tudo isto – instrumentos, técnicas, meios de produção e agentes de produção – está sempre em expansão, em certos momentos uma expansão em ritmo mais lento, em outros uma expansão em ritmo mais acelerado. O arado e a charrua constituem aperfeiçoamentos nos instrumentos de produção, as técnicas de cultivo se desenvolvem e se tornam mais eficientes, os meios de produção cedem espaço para novas apropriações humanas através de arroteamentos e ocupação de florestas antes intransponíveis, e a força de trabalho se desenvolve, torna-se mais eficaz, mas também mais complexa, mais beneficiada pela interação humana. A certa altura, com a melhoria da agricultura, produz-se um excedente e, mais bem alimentada, ocorre uma melhoria na qualidade de vida, abrem-se mesmo espaços para que nem todos precisem se dedicar a uma agricultura fechada, e muitos dos camponeses que eram encarregados de fazer tarefas relacionadas ao pequeno comércio local tornam-se comerciantes, engajam-se em empresas de longa distância, autonomizam-se em novas funções; alguns se tornam artesãos; outros continuam camponeses, mas já mais inquietos com as suas condições de vida e as amarras sociais que lhes são impostas.
Estas amarras são precisamente as ‘relações de produção’. No mundo medieval elas partilhavam a humanidade em três grupos básicos, apesar de existirem também outras funções e profissões. A nobreza, dominante, ocupa-se da guerra; o clero, desempenha as funções relacionadas à vida religiosa, fundamental para o homem medieval e mesmo para a manutenção do sistema (na verdade, o próprio clero também se dividia em um alto clero, oriundo da nobreza, e categorias vindas de extratos sociais inferiores, mas de modo esquemático – de acordo com o próprio esquema medieval das “três ordens” – pode ser considerado uma segunda ordem, ao lado da nobreza). Enquanto isto, a terceira ordem, a base produtiva do triângulo trifuncional, era precisamente o mundo do trabalho, em especial os servos que produziam o sustento alimentar de toda a sociedade, de modo que no esquema ideológico medieval esta partição aparecia como a célebre divisão em “belatore, oratore e laboratore”. Este esquema mental faz parte da “ideologia” – outro conceito importante para o marxismo – e que juntamente com a arte, com o sistema jurídico, com as relações de parentesco, fará parte da superestrutura que deriva da base, do que alguns materialistas históricos chamam de infra-estrutura.
Ora, precisamente no momento em que as ‘forças de produção’ expandidas permitem que se produza um excedente, na chamada ‘fase de expansão feudal’, é que se irá produzir ou se intensificar a contradição fundamental do mundo feudal: uma produção maior do que o consumo. Esta antiga organização social, tão rigidamente estratificada, passa a não mais condizer com um mundo em expansão. Resistente às forças que se articulam a esta expansão, a organização social cedo terá de dar lugar a uma outra, que predisporá ao surgimento, no período moderno, de um mundo que se organizará em torno do mercado, em uma primeira fase do que seria mais tarde um novo modo de produção: o ‘modo de produção capitalista’.
Estes esquemas, relativamente simples, são sugeridos por Karl Marx em A Ideologia Alemã (1946), ou ao menos podem ser deduzidos de uma primeira leitura dos seus escritos. Ocorre, contudo, que o ‘modo de produção’ produzido teoricamente para uma compreensão da sociedade é apenas um modelo. Na realidade histórica efetiva este modelo não existe, da maneira como a razão o organiza. É por causa disso que nos anos 1970 surgirá o conceito de “formação social”, e o de uma “formação social específica”. Trata-se de uma mediação para a aplicação da idéia de ‘modo de produção’ a sociedades históricas mais específicas, ambientadas em um espaço sob determinadas circunstâncias, e relacionadas a especificidades e complexidades adicionais, afeitas a um dinamismo que lhe é próprio.
A noção de “formação econômico-social” surge portanto para dar conta desta mediação entre o modelo e as realidades históricas específicas, achando-se registrada no livro de Leporini e Serene (1973) que leva este título. Pierre Vilar também lança mão do novo conceito, e o utiliza de maneira peculiar. A “formação econômico-social” poderia ser caracterizada por um “modo de produção dominante”, o que pressupõe a possibilidade da permanência de traços dos modos de produção anteriores ao lado da constituição de fatores novos, que já antecipam um modo de produção futuro e contribuem decisivamente para abalar a dominação presente. Estas idéias aparecem no célebre artigo escrito para a revista dos Annales em 1973, no qual Pierre Vilar polemiza com Althusser utilizando o sugestivo título “História Marxista, história em construção” (1973, p.165-198).
Sobre a idéia de uma formação social que inclui um modo de produção dominante e persistências de períodos anteriores, será oportuno lembrar uma carta de 1868 escrita por Marx a Engels, portanto no ano seguinte à publicação de O Capital. Nesta carta – que atesta simultaneamente a riqueza do pensamento dos fundadores do Materialismo Histórico e a sua capacidade de repensar continuamente os fundamentos do campo teórico-metodológico que estavam fundando – Marx escreve a Engels, com todas as letras, que tinha bem recentemente adquirido a consciência de que as formas sociais pré-capitalistas podiam sobreviver em meio ao Capitalismo. Ou seja, praticamente depois de escrever toda a sua obra conhecida até O Capital (1867), e três anos antes de escrever sua última obra de cunho historiográfico (“A Guerra Civil na França”, 1871), Karl Marx ainda formularia um ajuste que somente seria repensado mais sistematicamente cem anos depois.
É em vista de situações como estas que freqüentemente os filósofos, historiadores e sociólogos marxistas, e também pensadores ligados a outros campos teóricos, têm retornado freqüentemente a textos de Marx que passaram despercebidos diante de obras que foram transformadas em cânones. Isso ocorreu com “O fetichismo da Mercadoria”, inspirador da Escola de Frankfurt, com os Grundrisse, inspiração para a escola Inglesa do Marxismo, e certamente ainda ocorrerá muito com a análise da correspondência de Marx e Engels com interlocutores diversos.
O conceito de "modo de produção" ainda se beneficiaria de inúmeras proposições, ao cuidado de teóricos, filósofos, sociólogos e historiadores que se vincularam à concepção do Materialismo Histórico. O paradigma do Materialismo Histórico, com seus diversos conceitos abriu-se, e abre-se ainda hoje, a uma discussão muito rica de possibilidades. Esse aspecto é importante para compreendermos que um paradigma historiográfico, e o Materialismo Histórico em particular, jamais deve ser tratado como um sistema fechado, definitivo. Um paradigma constitui uma base comum a partir da qual os praticantes de um campo de saber podem desenvolver suas concepções, criando novas alternativas no interior do paradigma.
O presente texto foi extraído do Terceiro Volume do meu livro 'Teoria da História' (BARROS, José D'Assunção. Teoria da História - volume 3: os paradigmas revolucionários. Petrópolis: Editora Vozes, 2011).
segunda-feira, 27 de dezembro de 2010
Materialismo Histórico - esclarecimentos para os iniciantes nos estudos históricos
Na última postagem deste blog, examinamos dois paradigmas importantes que começaram a surgir na mesma época em que a História passou a postular um estatuto de cientificidade: o Positivismo e o Historicismo. Neste momento, pretendo a discorrer sobre o terceiro paradigma historiográfico importante que surgiu ainda no século XIX: o Materialismo Histórico. Com este terceiro paradigma, temos os três paradigmas que se afirmam no século XIX como alternativas para os historiadores: o Positivismo, o Historicismo e o Materialismo Histórico. Havia ainda outras variações e possibilidades, como a historiografia idealista inspirada na 'Filosofia da História' de Hegel, ou como o paradigma romântico, que em muitos casos apresenta pontos em comum com o Historicismo. Mas deixaremos para falar nestas correntes em outros momentos. Por ora, vamos nos concentrar no Materialismo Histórico e procurar perceber em que este paradigma, fundado por Marx e Engels, contrasta com os dois paradigmas anteriores. Gostaria de alertar para o fato de que me permitirei a algumas simplificações, uma vez que este post, especificamente, é destinado àqueles que ainda não estão familiarizados com os fundamentos do Materialismo Histórico. Em outros posts, avançaremos para níveis maiores de complexidade.
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Um primeiro elemento pode opor o Materialismo Histórico ao outros dois paradigmas (Historicista e Positivista). Pode-se dizer que aqueles paradigmas, nos seus primórdios, adequaram-se satisfatoriamente bem a projetos conservadores (amparar o projeto de "conciliação de classes" que interessava à Burguesia Industrial, no caso do Positivismo Francês, e dar sustento às necessidades dos governos nacionais, no caso do Historicismo Alemão). O Materialismo Histórico, por outro lado, vai se vincular no momento do seu nascedouro a um projeto declaradamente revolucionário. Trata-se de um paradigma historiográfico que tenta dar respostas a uma história que se volta também para as classes sociais menos favorecidas, e não apenas para as elites. Mais ainda,de acordo com o projeto mais específico de Marx, trata-se de contribuir para uma transformação da sociedade.
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Vejam. Isso não quer dizer que cada Positivista e Historicista seja conservador, ou que todo historiador que instrumentaliza o Materialista Histórico seja revolucionário ou que tenha interesses libertadores. O Historicismo, apesar de seus inícios conservadores, foi caminhando para um "relativismo" bastante interessante para a Historiografia, o que favoreceu cada vez mais a tomada de consciência de que "tudo é histórico". O Positivismo também trouxe propostas interessantes para o desenvolvimento das ciências sociais, tal como a corrente teórica de Durkheim (um sociólogo do início do século XX). E o Materialismo Histórico, apesar de inúmeras contribuições que beneficiaram um olhar menos elitista da História, também não deixou de trazer uma corrente que nos dias de hoje é muito questionada, e que é a do stalinismo, na primeira metade do século XX. Mas vamos nos guardar de analisar este ou aquele paradigma como bom, e este ou aquele outro como "mal". O importante, por ora, é conhecermos os paradigmas, e também outras correntes teóricas e alternativas, para fazermos nossas escolhas futuras. Há também autores fundamentais que se localizam "entre" os paradigmas. Outros, fazem combinações entre elementos dos diversos paradigmas. Ou seja, os paradigmas, no seu estado puro, são mais referências do que realidades na prática historiográfica efetiva.
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Vamos agora ao tema deste texto: o Materialismo Histórico.
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Antes de mais nada, dois nomes importantes. Os fundadores deste novo paradigma foram Karl Marx e Friedrich Engels, dois pensadores alemães. Depois vieram outros, muitos outros. Até hoje, o Materialismo Histórico é um paradigma adotado por muitos historiadores, ou por vezes influencia outros historiadores ainda, mesmo que eles não sejam ligados totalmente ao Materialismo Histórico.
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O Materialismo Histórico tem três traços principais que não podem ser esquecidos: "Materialismo", "Historicidade total", e "Dialética". Eu diria que estas três instâncias constituem o "núcleo duro" do Materialismo Histórico: aquilo que, se for retirado, descaracteriza totalmente o que poderia ser chamado de Materialismo Histórico. É na união destas três instâncias - Historicisdade, Materialismo e Dialética - e de mais alguns conceitos (como o de "classe social" e "luta de classes"), que se constrói este paradigma que vamos começar a definir neste momento.
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Em outras oportunidades, discutiremos melhor o que é "Materialismo". Mas só para viabilizar uma imagem inicial, podemos considerar que o "Materialismo" corresponde às maneiras de pensar que se opõem ao "Idealismo". Um sistema de pensamento é "idealista" quando começa a pensar as coisas a partir do "mundo das idéias", do "mundo espiritual", e só depois desce à realidade mais concreta e prática, ao mundo sensível, à materialidade física, e assim por diante. Como exemplo de filósofo "idealista" podemos lembrar Platão, filósofo da Grécia Antiga. Lembremos do célebre "mito das cavernas". Platão sugeria através deste mito, descrito em um de seus diálogos, uma hipótese primordialpara o seu pensamento. Além deste mundo em que vivemos, existiria um mundo anterior e mais perfeito - o "mundo das idéias". O nosso mundo não seria mais do que uma imitação mais perfeita desse "mundo das idéias".
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Isso é um padrão de pensamento "idealista". Muitas religiões, sem querer entrar no mérito de quais, e em quais momentos de sua história, colocam todo o seu investimento em um mundo que existiria depois da morte, e pregam que esse mundo material não tem importância. Isto é uma forma de "idealismo". Também existe um pensamento idealista naqueles filósofos que imaginam que tudo começa, inclusive a história, com uma "idéia", com o "espírito", com o "pensamento", e que o mundo material e concreto, a vida prática, é só um desdobramento de coisas que, antes de se concretizarem, adquirem existência em um plano não material. São alguns exemplos de idealismo.
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Hegel, um filósofo que poderemos discutir em outra oportunidade, era idealista. Ele postulava que a História começa sempre no mundo das idéias. A História seria a realização de uma espécie de "plano da natureza", e o mundo teria começado com um "espírito" que depois se concretizou e deu origem à Matéria. O pensamento de Hegel foi um dos muitos pensamentos idealistas que surgiram na história da filosofia (mas já veremos que uma das noções desenvolvidas por Hegel foi muito aproveitada pelo Materialismo Histórico: o pensamento dialético).
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O Materialismo, ao contrário do "Idealismo", acredita que tudo começa no mundo material, prático, concreto, e que só depois as idéias, as maneiras de pensar, a arte, as ideologias, vão surgindo. Para os materialistas, o historiador tem que começar analisando a base material, a vida concreta, o sistema de trabalho e a economia de uma sociedade. Só depois de examinar estes aspectos, é que ele pode entender por exemplo o plano cultural a arte de um povo, a sua organização política, o seus sistema de hierarquias sociais, preconceitos, e assim por diante. Mas voltaremos a isto depois.
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O segundo elemento do Materialismo Histórico é o conceito de "historicidade absoluta". Tudo é histórico, como já diziam os historicistas (neste ponto, os "materialistas históricos" e os "historicistas" se parecem bastante). Nada escapa à História. Para o materialista histórico, assim como para os historicistas, não existiria uma natureza humana fora da História, independente desta. A natureza humana vai mudando de acordo com a história. Não existiriam valores eternos, fora da história.
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Mas examinemos agora o terceiro elemento do Materialismo Histórico: a Dialética. Para isso, precisarei fazer uma breve digressão. De onde Marx e Engels tiraram a Dialética? Eles se inspiraram precisamente naquele filósofo do qual já falamos: Hegel. Hegel era "idealista"; mas avançou muito no desenvolvimento da dialética, e Marx e Engels aproveitaram isto (só que ao invés de uma "dialética idealista", como a de Hegel, eles irão trabalhar com uma "dialética materialista").
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Os três elementos principais da dialética são: "movimento", "interpenetração dos contrários", "totalidade". Um filósofo pré-socrático, da Grécia Antiga, chamado Heráclito, já falava muito destes aspectos. Para ele, a realidade seria um interminável "movimento", e nela existem sempre "forças opostas" se debatendo umas contra as outras (o calor e o frio, a água e o fogo, etc). Heráclito dizia: "é impossível entrar duas vezes no mesmo rio". Isso porque, quando alguém tenta entrar a segunda vez no mesmo rio, nem o rio é mais o mesmo, e a própria pessoa já mudou um pouco. Mas vamos voltar a Hegel.
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O Movimento Dialético proposto por Hegel começa com uma "Tese" (o ponto inicial de onde tudo começa). Dentro da Tese, mesmo sem que percebamos, já existe um elemento imperceptível de contradição. Quando essa contradição aumenta muito, ou se explicita, surge um segundo elemento, a "Antítese". A "Tese" e a "Antítese" são contraditórias. Elas estão entremeadas em uma realidade, e na verdade a constituem, mas são "contraditórias", e cedo ou tarde se confrontarão. Do confronto entre a Tese e a Antítese, surgirá um produto final: a Síntese. A Síntese tem traços da Tese, e traços da Antítese. Mas já é uma nova coisa. Este é o resultado final de um processo dialético: a Tese entra em confronto com a Antítese, e daí se produz a Síntese.
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Um exemplo já clássico é o da "estatueta de madeira". Digamos que um indiviíduo tenha vontade de construir uma estatueta de madeira. Essa é a "Tese". Para que esse indivíduo possa construir uma estatueta de madeira, contudo, não pode só ficar na idéia de esculpir a estatueta. Tem que passar à ação. A própria idéia de esculpir uma estatueta já traz dentro dela essa necessidade de passar à prática. Com vistas a executar o seu intento, o escultoir sai em busca de material para construir a estatueta, e encontra um pedaço de madeira. A madeira é a "Antítese". Vejam, estas duas coisas não poderão sobreviver uma à outra: elas terão que se enfrentar. A ideía de construir uma estatueta, logo terá de deixar de ser uma idéia. Também a madeira, logo terá de deixar de ser madeira. Uma é a Tese, a outra a Antítese. Então, o escultor começa o seu trabalho de construir a estatueta: a idéia vai se concretizando aos poucos (e deixando de ser idéia), e a madeira vai adquirindo, sob as suas mãos (de acordo com a sua idealização), uma nova forma. Ou seja, a madeira vai deixando de ser "madeira bruta", para se tornar uma "madeira trabalhada", esculpida, e logo logo uma "estatueta". No final de tudo, desapareceu tanto a idéia de construir a estatueta, como desapareceu o pedaço de madeira bruta. Uma nova coisa surgiu: a "estatueta de madeira", que é a Síntese. A "estatueta de madeira" tem tanto um pouco da "ideía de estatueta", como um pouco da m"madeira bruta". Mas ela é uma nova coisa.
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Dei outro exemplo: o da Água (H2O, de acordo com a fórmula química). Geralmente o que chamamos de "água" é o H2O em sua forma líquida. A "água" tem algumas caracetrísticas: é fria, morna, ou mesmo quente (mas não pode ultrapassar determinada temperatura). Suas moléculas não são tão unidas como as do gelo (que dão à água neste estado aquela solidez do gelo). As moléculas da água também não são totalmente desligadas uma das outras, como as moléculas do ar ou de um gás. Por isso, sem serem demasiado unidas ou demasiado soltas, a água tem aquela propriedade de se ajustar a qualquer recipiente (tomar a forma do copo ou da garrafa em que a depositamos). Bom, isso, enfim, é "Água". Esta será a nossa "Tese".
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Conforme disse, só existe "água" (em estado líquido) até uma certa temperatura. Abaixo dessa temperatura, por exemplo, as moléculas começam a se unir, e a água vira gelo. Acima de certa temperatura, as moléculas começam a se soltar demais e a água vira "vapor d´água". Bom, suponhamos que minha água está em um recipiente, e começo a fornecer-lhe mais temperatura. A "Elevação de Temperatura", no caso, será a minha "Antítese". A "Água" (a Tese) aceitará bem esta elevação de temperatura (a Antítese), mas só até certo ponto.
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Digamos que começamos a fornecer muito calor à água. Chega um momento em que as duas coisas - a "água" em estado líquido (a Tese), e a temperatura elevada (a Antítese) - já não podem conviver mais uma com a outra. Este é o momento máximo da "contradição" (a contradição é uma das categorias da dialética. é quando dois contrários, ou duas coisas incompatíveis, já não conseguem conviver mais uma com a outra). No caso em que estamos dando como exemplo, essa contradição vai ocorrer, no seu momento mais insustentável, quando a temperatura sobe a 100%. Nesse momento, a "água" não aguenta mais a temperatura (e podemos dizer que a temperatura também não aguenta mais a água"). O que ocorre então? Á água vai se transformar em "vapor dágua" (H2O em estado gasoso).
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O vapor dágua é a Sintese nesse caso. Ele contem água (a substância H2O), mas também um pouco das exigências da temperatura elevada (as moléculas soltas). Esse é o final desse processo dialético: do confronto entre água líquida (tese) e temperatura elevada (antítese), surgiu o vapor dágua (síntese).
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Prestem atenção naqueles "100 graus". Eles foram o momento no qual, subitamente, a água começou a se transformar em vapor. O processo dialético sempre comporta um momento destes: é o momento em que uma coisa parece "saltar" de um estado a outro (é o momento em que, no exemplo anterior, a "estatueta" já começou a tomar forma, e todo mundo percebe que a "madeira bruta" já está desaparecendo).
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O 100°, para a História, é muito importante. Em um processo histórico, esses "cem gaus" podem corresponder ao momento histórico de uma "revolução", ou de um acontecimento em que uma sociedade muda repentinamente e se transforma em uma outra coisa. O conceito de "revolução" também é muito importante para o paradigma do Materialismo Histórico.
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Vou introduzir, neste momento, já um exemplo histórico, mesmo que simplificado. Começarei com o exemplo da sociedade feudal. O mundo feudal, tal como ocorreu na Europa a certa altura do período medieval (entre os séculos XI e XIV, em alguns países) era constituído, grosso modo, de "feudos". O feudo era uma propriedade grande de terra , que tinha um "senhor", e muitos "servos" que terabalhavam a terra. O "servo" esra uma categoria mais livre do que o escravo da antiguidade romana, mas que (pelo menos aparentemente) não era tão livre como o operário do mundo capitalista. O servo, por exemplo, tinha que ficar preso à terra. Não podia simplesmente pegar suas coisas e ir buscar trabalho em outra freguesia.
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Esse era o mundo feudal. Havia os senhores, que pertenciam à ordem dos "guerreiros" (os bellatore, ou "os que lutam"), e os camponeses (os laboratore, "os que trabalham", que na verdade eram "os que cultivam a terra"). Havia ainda um outro elemento importantíssimo que era a Igreja, e a sociedade feudal também concedia um papel importante aos monges e eclesiásticos ("os que oravam"). Aliás, na época era difundida uma "ideologia" - um conjunto de idéias no qual todos eram levados a acreditar - que pode ser denominado "Ideologia das Três Ordens"). Dizia-se que, de acordo com a vontade de Deus, a sociedade era constituída de três ordens: os laboratore (os que trabalham), os bellatore (os que guerreiam), os oratore ("os que oram". Todo mundo que encontrasse o seu lugar nesse "triângulo trifuncional", como também é chamado, estava de acordo com a vontade de Deus.
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O Feudo perfeito produzia tudo o que precisava, e também consumia tudo, sem deixar sobras. Era portanto "auto-suficiente". Veja, isso é um "tipo ideal" de Feudo (para usar aquele recurso inventado por Max Weber, ao qual me referi acima, e que é pensar um modelo no estado puro). Na prática, não era bem assim. Sempre sobrava uma coisinha, e sempre faltava uma outra. O que ocorria, então, é que o "senhor", o "dono do feudo", designava um dos seus camponeses para ir no outro feudo trocar a sobrinha do feudo com alguma coisa útil.
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Vejam, sem querer, começou a surgir desse camponês que tinha essa função especial uma figura estranha ao "triângulo trifuncional" (os que guerreiam, os que "cultivam a terra", os "que oram").. Para ele viajar até o outro feudo, para trocar mantimentos de um tipo, com mantimentos de outro tipo, ele precisava parar de cultivar o solo (ou seja, precisava "deixar de ser camponês", pelo menos naquele momento). Sem querer, esse mundo feudal (a nosa Tese) já trazia dentro dele uma pequenina contradição, que era esse camponês deslocado para exercer uma função estranha. Mas isso não atrapalhava muito, e era perfeitamente assimilável ao sistema. Era até uma contradição "necessária ao sistema".
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Tudo funcionava bem, porque o que o feudo produzia era mais ou menos o que era consumido (auto-suficiência do feudo). Mas começou a ocorrer de repente um interessante fenômeno histórico. À medida que os camponeses trabalhavam, foram aprendendo a trabalhar cada vez melhor (foram desenvolvendo novas técnicas de cultivo). Como eram também eles que construíam os seus instrumentos (não havia artesãos, especializados em só construir instrumentos e ferramentas). logo eles começaram a construir instrumentos cada vez melhores. Aperfeiçoaram a "charrua", os instrumentos de arado, descobriram um modo de plantio no qual parte da terra descansava enquanto a outra trabalhava - enfim, com o desenvolvimento tecnológico, o trabalho se otimizou, começou-se a produzir mais mantimentos. Mais bem alimentados, a população camponesa foi também aumentando (isso é um dado que pode ser comprovado empiricamente nas fontes históricas, assim como a invenção de novas técnicas e instrumentos). Mas, de todo modo, começou a sobrar mais produtos do que podiam ser consumidos. Começou a ser produzido um "excedente".
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Nesse momento, surgiu uma contradição no sistema feudal: "uma produção maior do que o consumo". Na verdade, não é que surgiu a contradição naquele momento. Já existia aquela sobrinha, que aquele camponês era deslocado para negociar, como vimos antes. Só que a sobrinha foi aumentando. Podemos dizer que a "temperatura da água" começou a aumentar. A água correponde au "feudo" (nossa Tese). A temperatura aumentando corresponde ao "aumento da produção", ou às sobras cada vez maiores (a nossa Antítese). Quando essa produção ficou "muito maior", chegou o momento em que a contradição começou a se explicitar. Essa é a nossa temperatura de "100 graus". Cada vez mais, camponeses foram teransformados em "comerciantes". Alguns adquiriram o direito de se desligar do feudo. Começaram também a se arricar maios, e a desenvolver um "comércio de longa distância" (ir trocar mercadorias em outros países, para trazer, por exemplo, "especiarias" do oriente). Um lugar que começou a se desenvolver muito para acolher essa nova atividade que era o Comércio foram as Cidades. Vejam, as cidades já existiam (ou continuaram a existir na Idade Média, como heranças da Antiguidade). Mas a população era pequena. Algumas eram controladas pela Igreja (por um Bispo). Outras eram controladas por um ou mais senhores feudais. Só que cada vez mais as cidades foram acolhendo os comerciantes. A população foi crescendo. Surgiu um grupo de artesãos (pessoas especializadas, pela primeira vez, em construir ferramentas) A Cidade Medieval começou a se integrar à "contradição", ao Comércio de longa distância.
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Vejam que nesse momento já há uma contradição muito grande. Se o sistema feudal é caracterizado essencialmente por ser um sistema "fechado", "auto-suficiente", "trifuncional" (isso é, constituído de senhores, camponeses e monges), agora ésse mesmo sistema feudal tinha produzido um conjunto de coisas que já não se encaixava mais nessa situação inicial (a Tese, isto é, o mundo feudal). Uma contradição que foi aumentando cada vez mais ("a produção maior do que o consumo") foi dando origem a uma série de coisas novas, contraditórias em relação ao sistema anterior: a "estranha" figura do "comerciante" (estranha, claro, para o mundo feudal); outros tipos de trabalhadores, como os "artesãos"; o desenvolvimento urbano (Cidades cuja população e importância foi aumentando, e que acabaram conquistando a sua liberdade); o Comércio de longa distância, que nada mais é do que uma grande contradição em relação ao "feudalismo fechado", já que o comércio representa uma abertura para o mundo exterior.
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Todo esse complexo começou a se afirmar como uma "Antítese". Para superar essa Antítese, foi preciso ocorrer uma espécie de "revolução comercial". Não foi na maior parte dos lugares um movimento social como a revolução francesa, mas uma "revolução" no sentido mais amplo: uma revolução de costumes, o surgimento de uma nova maneira de pensar, o crecimento urbano, o desenvolvimento de estradas, um maior desenvolvimento da naútica, e, sobretudo, a invenção, ou o uso cada vez mais frequente, do "dinheiro". Não só dinheito sonante, mas também sistemas de câmbio (letras de câmbio, e outros recursos que facilitavam os negócios, mesmo sem precisar envolver dinheiro físico). Surgiu uma coisa nova: o "lucro". Tudo isso pode ser chamado de "Revolução Comercial" da Idade Média. Acabaria resultando daí uma nova sociedade e uma nova época: a Idade Moderna (a Síntese).
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Vejam, eu trabalhei nesta explicação simplificada com uma espécie de "tipo ideal" (para utilizar esta noção de Max Weber). Não é que só tenha acontecido isso, de acordo com o modelo puro que foi desenvolvido acima. A realidade foi um pouco mais complexa. Também utilizei a "dialética" para tentar compreender esse processo histórico que conduziu da Idade Média (mundo feudal) à Idade Moderna, através da "revolução comercial".
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Notem que não usei uma "dialética idealista", como faria Hegel (o filósofo idealista). Hegel tentaria começar a explicação dele com o mundo das idéias, talvez com a questão das "Três Ordens" (a ideologia divisão da sociedade em um triângulo trifuncional), ou com alguma necessidade do grande "Espírito Universal". Na minha explicação, eu comecei com um aspecto material da sociedade feudal: a propriedade concreta que era o feudo auto-suficiente, e a divisão do trabalho entre três tipos, os camponeses, os senhores, e os monges. Comecei explicando o mundo material, sobretudo o aspecto da autosuficiência e do perfeito equilíbrio entre a "produção" e o "consumo" (ou seja, uma questão econômica). Depois é que foram surgindo as outras coisas - as três ordens, etc. Também foram surgindo novas situações materiais da própria vida material, como o aperfeiçoamento do trabalho e a invenção de novas ferramentas. depois começou a surgir um sistema monetário, e finalmente surgiu a vontade do "lucro". O caminho foi da materialidade às situações relacionadas às relações sociais, depois ao surgimento de uma nova mentalidade, a do lucro. Isso foi uma explicação a partir de uma "dialética materialista".
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Vejam outra coisa. A realidade é na verdade mais complexa do que este "tipo ideal". Vocês vão ver no próximo semestre, na disciplina "Idade Média", que entram outras forças neste processo que eu não mencionei para não estender muito a explicação. Por exemplo, o "Rei". O "rei" no período feudal era uma figura fraca. Era na verdade, quase um "senhor" entre outros - um "senhor" um pouco mais forte, com a função de juiz maior, e que juntava exércitos dos outros senhores quando era necessário enfrentar outros povos. O "poder régio" também vai se fortalecendo muito a partir do século XIII - e entrando em contradição com o poder de autonomia de cada feudo. Na verdade, em muitos casos, os comerciantes e as cidades se aliaram a essa monarquia que foi se fortalecendo cada vez mais. A Idade Moderna já vai ser caracterizada pela emergência dessas monarquias fortes em alguns países como a França, a Espanha, Portugal, Inglaterra. As contradições nuna são tão simples na História. Estou apenas explicando, através de um exemplo simplificado, um modelo de pensamento. Quem quiser ler sobre este fortalecimento do Poder Régio, leia o livro "O Processo Civilizador", de Norbert Elias.
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Também surgiram contradições na Igreja (por exemplo, surgiram as "heresias"; e surgiram novas ordens como a dos "franciscanos", que foram viver bem no coração das cidades). Surgiram contradições, também, entre o Poder da Igreja e o Poder Régio. Todas essas contradições, vocês vão ver depois na disciplina Idade Média.
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Estou só dando exemplo de como seria a análise de um processo histórico - no caso a passagem da Idade Média Feudal ao Mundo Moderno - através de uma análise baseada no modelo do paradigma do Materialismo Histórico, que trabalha com as contradições.
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Vejam outra coisa. Todo tempo eu falei em alguns tipos humanos: o "camponês", o "senhor", os "eclesiásticos", o "comerciante", a "realeza". Não citei, em nenhum momento, um nome. É que, para o Materialismo Histórico, a história não é feita por indivíduos, mesmo os mais ilustres. Essas várias figuras que eu mencionei - o "camponês", a "aristocracia guerreira", a "burguesia ligada ao comércio" - representam "classes sociais". Para o Materialismo Histórico, a História é a história da "luta de classes". Pode ser luta mesmo (física, militar), ou confronto de interesses (por exemplo, os "interesses da burguesia" começam a se confrontar com os "interesses dos senhores feudais"). Para o Materialismo Histórico, a história dá-se através da "luta de classes", e também através da transformação de um tipo de sociedade em outro - ou melhor, de um tipo de organização econômica, ou de um "modo de produção", em outro. Vejam, não é só isso. Mas estes são alguns conceitos fundamentais do Materialismo Histórico.
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Uma última coisa. No século XIV aconteceu a "peste negra", por exemplo. Isso teve outros efeitos nessa transformação da sociedade medieval e na sua passagem à Idade Moderna, pois a população declinou novamente. Ou seja, claro que elementos climáticos, acontecimentos imprevisíveis, e outras coisas, também entram na História. Também teve muita revolta camponesa que foi sufocada; e aconteceram algumas revoltas urbanas.
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Esses são elementos que mostram que a realidade, na História Medieval, é bem mais complexa do que o que poderia ser simplificado pelo esquema atrás descitro. Apenas procurei oferecer aqui um exemplo histórico concreto. Poderiam ser dados outros exemplos, tais como o processo da Revolução Francesa, ou a Queda do Império Romano. Processos e acontecimentos históricos como estes também podem ser analisados sob a ótica do Materialismo Histórico. Este paradigma, enfim, oferece uma certa maneira de ver as coisas, assim como também o fazem os paradigmas Positivista e Historicista. E não está excluída a possibilidade de se combinar, para a interpretação de algum processo histórico elementos dos três paradigmas, ou de outros autores diversos. Mas isto é tema para um texto futuro.
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Um primeiro elemento pode opor o Materialismo Histórico ao outros dois paradigmas (Historicista e Positivista). Pode-se dizer que aqueles paradigmas, nos seus primórdios, adequaram-se satisfatoriamente bem a projetos conservadores (amparar o projeto de "conciliação de classes" que interessava à Burguesia Industrial, no caso do Positivismo Francês, e dar sustento às necessidades dos governos nacionais, no caso do Historicismo Alemão). O Materialismo Histórico, por outro lado, vai se vincular no momento do seu nascedouro a um projeto declaradamente revolucionário. Trata-se de um paradigma historiográfico que tenta dar respostas a uma história que se volta também para as classes sociais menos favorecidas, e não apenas para as elites. Mais ainda,de acordo com o projeto mais específico de Marx, trata-se de contribuir para uma transformação da sociedade.
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Vejam. Isso não quer dizer que cada Positivista e Historicista seja conservador, ou que todo historiador que instrumentaliza o Materialista Histórico seja revolucionário ou que tenha interesses libertadores. O Historicismo, apesar de seus inícios conservadores, foi caminhando para um "relativismo" bastante interessante para a Historiografia, o que favoreceu cada vez mais a tomada de consciência de que "tudo é histórico". O Positivismo também trouxe propostas interessantes para o desenvolvimento das ciências sociais, tal como a corrente teórica de Durkheim (um sociólogo do início do século XX). E o Materialismo Histórico, apesar de inúmeras contribuições que beneficiaram um olhar menos elitista da História, também não deixou de trazer uma corrente que nos dias de hoje é muito questionada, e que é a do stalinismo, na primeira metade do século XX. Mas vamos nos guardar de analisar este ou aquele paradigma como bom, e este ou aquele outro como "mal". O importante, por ora, é conhecermos os paradigmas, e também outras correntes teóricas e alternativas, para fazermos nossas escolhas futuras. Há também autores fundamentais que se localizam "entre" os paradigmas. Outros, fazem combinações entre elementos dos diversos paradigmas. Ou seja, os paradigmas, no seu estado puro, são mais referências do que realidades na prática historiográfica efetiva.
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Vamos agora ao tema deste texto: o Materialismo Histórico.
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Antes de mais nada, dois nomes importantes. Os fundadores deste novo paradigma foram Karl Marx e Friedrich Engels, dois pensadores alemães. Depois vieram outros, muitos outros. Até hoje, o Materialismo Histórico é um paradigma adotado por muitos historiadores, ou por vezes influencia outros historiadores ainda, mesmo que eles não sejam ligados totalmente ao Materialismo Histórico.
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O Materialismo Histórico tem três traços principais que não podem ser esquecidos: "Materialismo", "Historicidade total", e "Dialética". Eu diria que estas três instâncias constituem o "núcleo duro" do Materialismo Histórico: aquilo que, se for retirado, descaracteriza totalmente o que poderia ser chamado de Materialismo Histórico. É na união destas três instâncias - Historicisdade, Materialismo e Dialética - e de mais alguns conceitos (como o de "classe social" e "luta de classes"), que se constrói este paradigma que vamos começar a definir neste momento.
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Em outras oportunidades, discutiremos melhor o que é "Materialismo". Mas só para viabilizar uma imagem inicial, podemos considerar que o "Materialismo" corresponde às maneiras de pensar que se opõem ao "Idealismo". Um sistema de pensamento é "idealista" quando começa a pensar as coisas a partir do "mundo das idéias", do "mundo espiritual", e só depois desce à realidade mais concreta e prática, ao mundo sensível, à materialidade física, e assim por diante. Como exemplo de filósofo "idealista" podemos lembrar Platão, filósofo da Grécia Antiga. Lembremos do célebre "mito das cavernas". Platão sugeria através deste mito, descrito em um de seus diálogos, uma hipótese primordialpara o seu pensamento. Além deste mundo em que vivemos, existiria um mundo anterior e mais perfeito - o "mundo das idéias". O nosso mundo não seria mais do que uma imitação mais perfeita desse "mundo das idéias".
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Isso é um padrão de pensamento "idealista". Muitas religiões, sem querer entrar no mérito de quais, e em quais momentos de sua história, colocam todo o seu investimento em um mundo que existiria depois da morte, e pregam que esse mundo material não tem importância. Isto é uma forma de "idealismo". Também existe um pensamento idealista naqueles filósofos que imaginam que tudo começa, inclusive a história, com uma "idéia", com o "espírito", com o "pensamento", e que o mundo material e concreto, a vida prática, é só um desdobramento de coisas que, antes de se concretizarem, adquirem existência em um plano não material. São alguns exemplos de idealismo.
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Hegel, um filósofo que poderemos discutir em outra oportunidade, era idealista. Ele postulava que a História começa sempre no mundo das idéias. A História seria a realização de uma espécie de "plano da natureza", e o mundo teria começado com um "espírito" que depois se concretizou e deu origem à Matéria. O pensamento de Hegel foi um dos muitos pensamentos idealistas que surgiram na história da filosofia (mas já veremos que uma das noções desenvolvidas por Hegel foi muito aproveitada pelo Materialismo Histórico: o pensamento dialético).
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O Materialismo, ao contrário do "Idealismo", acredita que tudo começa no mundo material, prático, concreto, e que só depois as idéias, as maneiras de pensar, a arte, as ideologias, vão surgindo. Para os materialistas, o historiador tem que começar analisando a base material, a vida concreta, o sistema de trabalho e a economia de uma sociedade. Só depois de examinar estes aspectos, é que ele pode entender por exemplo o plano cultural a arte de um povo, a sua organização política, o seus sistema de hierarquias sociais, preconceitos, e assim por diante. Mas voltaremos a isto depois.
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O segundo elemento do Materialismo Histórico é o conceito de "historicidade absoluta". Tudo é histórico, como já diziam os historicistas (neste ponto, os "materialistas históricos" e os "historicistas" se parecem bastante). Nada escapa à História. Para o materialista histórico, assim como para os historicistas, não existiria uma natureza humana fora da História, independente desta. A natureza humana vai mudando de acordo com a história. Não existiriam valores eternos, fora da história.
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Mas examinemos agora o terceiro elemento do Materialismo Histórico: a Dialética. Para isso, precisarei fazer uma breve digressão. De onde Marx e Engels tiraram a Dialética? Eles se inspiraram precisamente naquele filósofo do qual já falamos: Hegel. Hegel era "idealista"; mas avançou muito no desenvolvimento da dialética, e Marx e Engels aproveitaram isto (só que ao invés de uma "dialética idealista", como a de Hegel, eles irão trabalhar com uma "dialética materialista").
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Os três elementos principais da dialética são: "movimento", "interpenetração dos contrários", "totalidade". Um filósofo pré-socrático, da Grécia Antiga, chamado Heráclito, já falava muito destes aspectos. Para ele, a realidade seria um interminável "movimento", e nela existem sempre "forças opostas" se debatendo umas contra as outras (o calor e o frio, a água e o fogo, etc). Heráclito dizia: "é impossível entrar duas vezes no mesmo rio". Isso porque, quando alguém tenta entrar a segunda vez no mesmo rio, nem o rio é mais o mesmo, e a própria pessoa já mudou um pouco. Mas vamos voltar a Hegel.
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O Movimento Dialético proposto por Hegel começa com uma "Tese" (o ponto inicial de onde tudo começa). Dentro da Tese, mesmo sem que percebamos, já existe um elemento imperceptível de contradição. Quando essa contradição aumenta muito, ou se explicita, surge um segundo elemento, a "Antítese". A "Tese" e a "Antítese" são contraditórias. Elas estão entremeadas em uma realidade, e na verdade a constituem, mas são "contraditórias", e cedo ou tarde se confrontarão. Do confronto entre a Tese e a Antítese, surgirá um produto final: a Síntese. A Síntese tem traços da Tese, e traços da Antítese. Mas já é uma nova coisa. Este é o resultado final de um processo dialético: a Tese entra em confronto com a Antítese, e daí se produz a Síntese.
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Um exemplo já clássico é o da "estatueta de madeira". Digamos que um indiviíduo tenha vontade de construir uma estatueta de madeira. Essa é a "Tese". Para que esse indivíduo possa construir uma estatueta de madeira, contudo, não pode só ficar na idéia de esculpir a estatueta. Tem que passar à ação. A própria idéia de esculpir uma estatueta já traz dentro dela essa necessidade de passar à prática. Com vistas a executar o seu intento, o escultoir sai em busca de material para construir a estatueta, e encontra um pedaço de madeira. A madeira é a "Antítese". Vejam, estas duas coisas não poderão sobreviver uma à outra: elas terão que se enfrentar. A ideía de construir uma estatueta, logo terá de deixar de ser uma idéia. Também a madeira, logo terá de deixar de ser madeira. Uma é a Tese, a outra a Antítese. Então, o escultor começa o seu trabalho de construir a estatueta: a idéia vai se concretizando aos poucos (e deixando de ser idéia), e a madeira vai adquirindo, sob as suas mãos (de acordo com a sua idealização), uma nova forma. Ou seja, a madeira vai deixando de ser "madeira bruta", para se tornar uma "madeira trabalhada", esculpida, e logo logo uma "estatueta". No final de tudo, desapareceu tanto a idéia de construir a estatueta, como desapareceu o pedaço de madeira bruta. Uma nova coisa surgiu: a "estatueta de madeira", que é a Síntese. A "estatueta de madeira" tem tanto um pouco da "ideía de estatueta", como um pouco da m"madeira bruta". Mas ela é uma nova coisa.
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Dei outro exemplo: o da Água (H2O, de acordo com a fórmula química). Geralmente o que chamamos de "água" é o H2O em sua forma líquida. A "água" tem algumas caracetrísticas: é fria, morna, ou mesmo quente (mas não pode ultrapassar determinada temperatura). Suas moléculas não são tão unidas como as do gelo (que dão à água neste estado aquela solidez do gelo). As moléculas da água também não são totalmente desligadas uma das outras, como as moléculas do ar ou de um gás. Por isso, sem serem demasiado unidas ou demasiado soltas, a água tem aquela propriedade de se ajustar a qualquer recipiente (tomar a forma do copo ou da garrafa em que a depositamos). Bom, isso, enfim, é "Água". Esta será a nossa "Tese".
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Conforme disse, só existe "água" (em estado líquido) até uma certa temperatura. Abaixo dessa temperatura, por exemplo, as moléculas começam a se unir, e a água vira gelo. Acima de certa temperatura, as moléculas começam a se soltar demais e a água vira "vapor d´água". Bom, suponhamos que minha água está em um recipiente, e começo a fornecer-lhe mais temperatura. A "Elevação de Temperatura", no caso, será a minha "Antítese". A "Água" (a Tese) aceitará bem esta elevação de temperatura (a Antítese), mas só até certo ponto.
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Digamos que começamos a fornecer muito calor à água. Chega um momento em que as duas coisas - a "água" em estado líquido (a Tese), e a temperatura elevada (a Antítese) - já não podem conviver mais uma com a outra. Este é o momento máximo da "contradição" (a contradição é uma das categorias da dialética. é quando dois contrários, ou duas coisas incompatíveis, já não conseguem conviver mais uma com a outra). No caso em que estamos dando como exemplo, essa contradição vai ocorrer, no seu momento mais insustentável, quando a temperatura sobe a 100%. Nesse momento, a "água" não aguenta mais a temperatura (e podemos dizer que a temperatura também não aguenta mais a água"). O que ocorre então? Á água vai se transformar em "vapor dágua" (H2O em estado gasoso).
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O vapor dágua é a Sintese nesse caso. Ele contem água (a substância H2O), mas também um pouco das exigências da temperatura elevada (as moléculas soltas). Esse é o final desse processo dialético: do confronto entre água líquida (tese) e temperatura elevada (antítese), surgiu o vapor dágua (síntese).
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Prestem atenção naqueles "100 graus". Eles foram o momento no qual, subitamente, a água começou a se transformar em vapor. O processo dialético sempre comporta um momento destes: é o momento em que uma coisa parece "saltar" de um estado a outro (é o momento em que, no exemplo anterior, a "estatueta" já começou a tomar forma, e todo mundo percebe que a "madeira bruta" já está desaparecendo).
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O 100°, para a História, é muito importante. Em um processo histórico, esses "cem gaus" podem corresponder ao momento histórico de uma "revolução", ou de um acontecimento em que uma sociedade muda repentinamente e se transforma em uma outra coisa. O conceito de "revolução" também é muito importante para o paradigma do Materialismo Histórico.
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Vou introduzir, neste momento, já um exemplo histórico, mesmo que simplificado. Começarei com o exemplo da sociedade feudal. O mundo feudal, tal como ocorreu na Europa a certa altura do período medieval (entre os séculos XI e XIV, em alguns países) era constituído, grosso modo, de "feudos". O feudo era uma propriedade grande de terra , que tinha um "senhor", e muitos "servos" que terabalhavam a terra. O "servo" esra uma categoria mais livre do que o escravo da antiguidade romana, mas que (pelo menos aparentemente) não era tão livre como o operário do mundo capitalista. O servo, por exemplo, tinha que ficar preso à terra. Não podia simplesmente pegar suas coisas e ir buscar trabalho em outra freguesia.
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Esse era o mundo feudal. Havia os senhores, que pertenciam à ordem dos "guerreiros" (os bellatore, ou "os que lutam"), e os camponeses (os laboratore, "os que trabalham", que na verdade eram "os que cultivam a terra"). Havia ainda um outro elemento importantíssimo que era a Igreja, e a sociedade feudal também concedia um papel importante aos monges e eclesiásticos ("os que oravam"). Aliás, na época era difundida uma "ideologia" - um conjunto de idéias no qual todos eram levados a acreditar - que pode ser denominado "Ideologia das Três Ordens"). Dizia-se que, de acordo com a vontade de Deus, a sociedade era constituída de três ordens: os laboratore (os que trabalham), os bellatore (os que guerreiam), os oratore ("os que oram". Todo mundo que encontrasse o seu lugar nesse "triângulo trifuncional", como também é chamado, estava de acordo com a vontade de Deus.
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O Feudo perfeito produzia tudo o que precisava, e também consumia tudo, sem deixar sobras. Era portanto "auto-suficiente". Veja, isso é um "tipo ideal" de Feudo (para usar aquele recurso inventado por Max Weber, ao qual me referi acima, e que é pensar um modelo no estado puro). Na prática, não era bem assim. Sempre sobrava uma coisinha, e sempre faltava uma outra. O que ocorria, então, é que o "senhor", o "dono do feudo", designava um dos seus camponeses para ir no outro feudo trocar a sobrinha do feudo com alguma coisa útil.
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Vejam, sem querer, começou a surgir desse camponês que tinha essa função especial uma figura estranha ao "triângulo trifuncional" (os que guerreiam, os que "cultivam a terra", os "que oram").. Para ele viajar até o outro feudo, para trocar mantimentos de um tipo, com mantimentos de outro tipo, ele precisava parar de cultivar o solo (ou seja, precisava "deixar de ser camponês", pelo menos naquele momento). Sem querer, esse mundo feudal (a nosa Tese) já trazia dentro dele uma pequenina contradição, que era esse camponês deslocado para exercer uma função estranha. Mas isso não atrapalhava muito, e era perfeitamente assimilável ao sistema. Era até uma contradição "necessária ao sistema".
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Tudo funcionava bem, porque o que o feudo produzia era mais ou menos o que era consumido (auto-suficiência do feudo). Mas começou a ocorrer de repente um interessante fenômeno histórico. À medida que os camponeses trabalhavam, foram aprendendo a trabalhar cada vez melhor (foram desenvolvendo novas técnicas de cultivo). Como eram também eles que construíam os seus instrumentos (não havia artesãos, especializados em só construir instrumentos e ferramentas). logo eles começaram a construir instrumentos cada vez melhores. Aperfeiçoaram a "charrua", os instrumentos de arado, descobriram um modo de plantio no qual parte da terra descansava enquanto a outra trabalhava - enfim, com o desenvolvimento tecnológico, o trabalho se otimizou, começou-se a produzir mais mantimentos. Mais bem alimentados, a população camponesa foi também aumentando (isso é um dado que pode ser comprovado empiricamente nas fontes históricas, assim como a invenção de novas técnicas e instrumentos). Mas, de todo modo, começou a sobrar mais produtos do que podiam ser consumidos. Começou a ser produzido um "excedente".
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Nesse momento, surgiu uma contradição no sistema feudal: "uma produção maior do que o consumo". Na verdade, não é que surgiu a contradição naquele momento. Já existia aquela sobrinha, que aquele camponês era deslocado para negociar, como vimos antes. Só que a sobrinha foi aumentando. Podemos dizer que a "temperatura da água" começou a aumentar. A água correponde au "feudo" (nossa Tese). A temperatura aumentando corresponde ao "aumento da produção", ou às sobras cada vez maiores (a nossa Antítese). Quando essa produção ficou "muito maior", chegou o momento em que a contradição começou a se explicitar. Essa é a nossa temperatura de "100 graus". Cada vez mais, camponeses foram teransformados em "comerciantes". Alguns adquiriram o direito de se desligar do feudo. Começaram também a se arricar maios, e a desenvolver um "comércio de longa distância" (ir trocar mercadorias em outros países, para trazer, por exemplo, "especiarias" do oriente). Um lugar que começou a se desenvolver muito para acolher essa nova atividade que era o Comércio foram as Cidades. Vejam, as cidades já existiam (ou continuaram a existir na Idade Média, como heranças da Antiguidade). Mas a população era pequena. Algumas eram controladas pela Igreja (por um Bispo). Outras eram controladas por um ou mais senhores feudais. Só que cada vez mais as cidades foram acolhendo os comerciantes. A população foi crescendo. Surgiu um grupo de artesãos (pessoas especializadas, pela primeira vez, em construir ferramentas) A Cidade Medieval começou a se integrar à "contradição", ao Comércio de longa distância.
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Vejam que nesse momento já há uma contradição muito grande. Se o sistema feudal é caracterizado essencialmente por ser um sistema "fechado", "auto-suficiente", "trifuncional" (isso é, constituído de senhores, camponeses e monges), agora ésse mesmo sistema feudal tinha produzido um conjunto de coisas que já não se encaixava mais nessa situação inicial (a Tese, isto é, o mundo feudal). Uma contradição que foi aumentando cada vez mais ("a produção maior do que o consumo") foi dando origem a uma série de coisas novas, contraditórias em relação ao sistema anterior: a "estranha" figura do "comerciante" (estranha, claro, para o mundo feudal); outros tipos de trabalhadores, como os "artesãos"; o desenvolvimento urbano (Cidades cuja população e importância foi aumentando, e que acabaram conquistando a sua liberdade); o Comércio de longa distância, que nada mais é do que uma grande contradição em relação ao "feudalismo fechado", já que o comércio representa uma abertura para o mundo exterior.
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Todo esse complexo começou a se afirmar como uma "Antítese". Para superar essa Antítese, foi preciso ocorrer uma espécie de "revolução comercial". Não foi na maior parte dos lugares um movimento social como a revolução francesa, mas uma "revolução" no sentido mais amplo: uma revolução de costumes, o surgimento de uma nova maneira de pensar, o crecimento urbano, o desenvolvimento de estradas, um maior desenvolvimento da naútica, e, sobretudo, a invenção, ou o uso cada vez mais frequente, do "dinheiro". Não só dinheito sonante, mas também sistemas de câmbio (letras de câmbio, e outros recursos que facilitavam os negócios, mesmo sem precisar envolver dinheiro físico). Surgiu uma coisa nova: o "lucro". Tudo isso pode ser chamado de "Revolução Comercial" da Idade Média. Acabaria resultando daí uma nova sociedade e uma nova época: a Idade Moderna (a Síntese).
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Vejam, eu trabalhei nesta explicação simplificada com uma espécie de "tipo ideal" (para utilizar esta noção de Max Weber). Não é que só tenha acontecido isso, de acordo com o modelo puro que foi desenvolvido acima. A realidade foi um pouco mais complexa. Também utilizei a "dialética" para tentar compreender esse processo histórico que conduziu da Idade Média (mundo feudal) à Idade Moderna, através da "revolução comercial".
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Notem que não usei uma "dialética idealista", como faria Hegel (o filósofo idealista). Hegel tentaria começar a explicação dele com o mundo das idéias, talvez com a questão das "Três Ordens" (a ideologia divisão da sociedade em um triângulo trifuncional), ou com alguma necessidade do grande "Espírito Universal". Na minha explicação, eu comecei com um aspecto material da sociedade feudal: a propriedade concreta que era o feudo auto-suficiente, e a divisão do trabalho entre três tipos, os camponeses, os senhores, e os monges. Comecei explicando o mundo material, sobretudo o aspecto da autosuficiência e do perfeito equilíbrio entre a "produção" e o "consumo" (ou seja, uma questão econômica). Depois é que foram surgindo as outras coisas - as três ordens, etc. Também foram surgindo novas situações materiais da própria vida material, como o aperfeiçoamento do trabalho e a invenção de novas ferramentas. depois começou a surgir um sistema monetário, e finalmente surgiu a vontade do "lucro". O caminho foi da materialidade às situações relacionadas às relações sociais, depois ao surgimento de uma nova mentalidade, a do lucro. Isso foi uma explicação a partir de uma "dialética materialista".
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Vejam outra coisa. A realidade é na verdade mais complexa do que este "tipo ideal". Vocês vão ver no próximo semestre, na disciplina "Idade Média", que entram outras forças neste processo que eu não mencionei para não estender muito a explicação. Por exemplo, o "Rei". O "rei" no período feudal era uma figura fraca. Era na verdade, quase um "senhor" entre outros - um "senhor" um pouco mais forte, com a função de juiz maior, e que juntava exércitos dos outros senhores quando era necessário enfrentar outros povos. O "poder régio" também vai se fortalecendo muito a partir do século XIII - e entrando em contradição com o poder de autonomia de cada feudo. Na verdade, em muitos casos, os comerciantes e as cidades se aliaram a essa monarquia que foi se fortalecendo cada vez mais. A Idade Moderna já vai ser caracterizada pela emergência dessas monarquias fortes em alguns países como a França, a Espanha, Portugal, Inglaterra. As contradições nuna são tão simples na História. Estou apenas explicando, através de um exemplo simplificado, um modelo de pensamento. Quem quiser ler sobre este fortalecimento do Poder Régio, leia o livro "O Processo Civilizador", de Norbert Elias.
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Também surgiram contradições na Igreja (por exemplo, surgiram as "heresias"; e surgiram novas ordens como a dos "franciscanos", que foram viver bem no coração das cidades). Surgiram contradições, também, entre o Poder da Igreja e o Poder Régio. Todas essas contradições, vocês vão ver depois na disciplina Idade Média.
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Estou só dando exemplo de como seria a análise de um processo histórico - no caso a passagem da Idade Média Feudal ao Mundo Moderno - através de uma análise baseada no modelo do paradigma do Materialismo Histórico, que trabalha com as contradições.
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Vejam outra coisa. Todo tempo eu falei em alguns tipos humanos: o "camponês", o "senhor", os "eclesiásticos", o "comerciante", a "realeza". Não citei, em nenhum momento, um nome. É que, para o Materialismo Histórico, a história não é feita por indivíduos, mesmo os mais ilustres. Essas várias figuras que eu mencionei - o "camponês", a "aristocracia guerreira", a "burguesia ligada ao comércio" - representam "classes sociais". Para o Materialismo Histórico, a História é a história da "luta de classes". Pode ser luta mesmo (física, militar), ou confronto de interesses (por exemplo, os "interesses da burguesia" começam a se confrontar com os "interesses dos senhores feudais"). Para o Materialismo Histórico, a história dá-se através da "luta de classes", e também através da transformação de um tipo de sociedade em outro - ou melhor, de um tipo de organização econômica, ou de um "modo de produção", em outro. Vejam, não é só isso. Mas estes são alguns conceitos fundamentais do Materialismo Histórico.
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Uma última coisa. No século XIV aconteceu a "peste negra", por exemplo. Isso teve outros efeitos nessa transformação da sociedade medieval e na sua passagem à Idade Moderna, pois a população declinou novamente. Ou seja, claro que elementos climáticos, acontecimentos imprevisíveis, e outras coisas, também entram na História. Também teve muita revolta camponesa que foi sufocada; e aconteceram algumas revoltas urbanas.
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Esses são elementos que mostram que a realidade, na História Medieval, é bem mais complexa do que o que poderia ser simplificado pelo esquema atrás descitro. Apenas procurei oferecer aqui um exemplo histórico concreto. Poderiam ser dados outros exemplos, tais como o processo da Revolução Francesa, ou a Queda do Império Romano. Processos e acontecimentos históricos como estes também podem ser analisados sob a ótica do Materialismo Histórico. Este paradigma, enfim, oferece uma certa maneira de ver as coisas, assim como também o fazem os paradigmas Positivista e Historicista. E não está excluída a possibilidade de se combinar, para a interpretação de algum processo histórico elementos dos três paradigmas, ou de outros autores diversos. Mas isto é tema para um texto futuro.
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