Podemos iniciar uma compreensão sobre o contraste e interação entre Teoria e Metodologia com uma pequena lembrança sobre a origem das próprias palavras. "Teoria", na sua origem etimológica, está relacionada ao verbo "ver", no sentido de "conceber" (ter uma certa concepção de algo, ou enxergar uma realidade de determinada maneira,quer dizer, por um certo viés).
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Enquanto isso, "Metodologia" relaciona-se ao verbo "fazer". Etimologicamente, "Método" está relacionado a "caminho", A Metodologia surge quando você tem uma tarefa concreta a ser realizada, um objetivo a ser alcançado, uma ação a ser desfechada. Aí, nesse momento em que se passa à ação ou à prática, é preciso adotar procedimentos, escolher materiais e instrumentos de trabalho, planejar uma ação.
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Teoria e Metodologia são, portanto, campos bem diferenciados, embora interajam uma com a outra na produção de conhecimento científico (e, na verdade, em diversas áreas e atividades presentes na vida).
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Quando um pesquisador vai estudar algo, ele já tem uma certa concepção teórica (uma determinada visão de mundo). Também pode ocorrer que, diante de uma situação aparentemente obscura, ou demasiado complexa, o pesquisador adote certos instrumentos teóricos para ver as coisas de determinada maneira. Desta maneira, a Teoria surge da necessidade de enxergar a realidade de forma mais organizada, mais sistematizada.
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A Teoria envolve elementos e aspectos diversos. Os "conceitos", por exemplo, são instrumentos de primeira necessidade para a produção do conhecimento científico, pois eles permitem que uma certa realidade obscura ou complexa seja vista de determinada maneira, a partir de certa perspectiva ou recorte da realidade. Podemos dar o exemplo do conceito de "classe social". Trata-se de um conceito que propõe enxergar uma sociedade como que partilhada por diferentes grupos sociais, definidos por obrigações, privilégios, ou diferentes status (como a posse de mais ou menos dinheiro, nas sociedades capitalistas).
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Quando se enxerga a sociedade a partir de conceitos, como este, torna-se possível simplificar ou organizar mentalmente uma realidade que, de outro modo, seria demasiado complexa ou caótica. Os conceitos são, portanto, instrumentos que possibilitam que enxerguemos por um certo viés uma realidade (uma sociedade histórica, ou um processo, por exemplo).
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Outra coisa ligada ao âmbito da Teoria são os paradigmas que podem orientar a ação e compreensão de um certo campo de saber. Podemos entender um paradigma como uma certa maneira de enxergar determinado campo de conhecimentos. Por exemplo, a História oferece vários paradigmas àqueles que a praticam. Três dos principais paradigmas que surgiram já no século XIX (o século em que a História começou a se postular como um campo científico) foram o Positivismo, o Historicismo e o Materialismo Histórico. Em cada um destes paradigmas, este campo de conhecimento que é a História é visto ou trabalhado de maneira diferente. Isto é, cada um destes paradigmas concebe de maneira diferente a História (isto é, enxerga de maneira difeneciada a História, como campo de produção de um determinado tipo de saber). Paradigmas ditintos podem não apenas compreender de maneira diferenciada o seu campo de saber, como também atribuir tarefas distintas para os seus praticantes, fazer perguntas específicas, lidar de maneira diversificada com a questão da subjetividade e da objetividade.
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Apenas para lembrar um exemplo, o paradigma positivista postula que o historiador pode fazer o seu trabalho ancorado em uma total neutralidade, como se ele mesmo estivesse destacado da História. O Historicismo, ao contrário, já não enxerga o ofício do historiador desta maneira, pois sustenta que o próprio historiador está mergulhado na História (isto é, na areia movediça que produz o conhecimento histórico). Ele pode assegurar uma certa objetividade, se trabalhar com isenção científica e com uma boa metodologia, mas não pode assegurar uma neutralidade absoluta. Para os Historicistas, e também para o Materialismo Histórico, o ponto de vista neutro, fora da história, não existe. Mas não devemos confundir isso com outra coisa: isso não quer dizer que escrever História seja o mesmo que elaborar um panfleto político.
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O Materialismo Histórico, um terceiro paradigma, concebe a história a partir de um duplo ponto de vista: de que o historiador deve considerar a base material da vida social para compreender uma sociedade histórica, e de que a história se movimenta através de uma "luta de classes". Portanto, o Materialismo Histórico vê a História de uma certa maneira, pois enxerga os processos históricos a partir dos conceitos de "luta de classes", "modos de produção", e outros.
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Os "paradigmas", enfim, também são aspectos relacionados à Teoria.
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Por fim, outra coisa que faz parte da "Teoria" são os inúmeros "campos da história" nos quais a História se organiza nos dias de hoje. A organização de um campo de saber em especialidades ou âmbitos de ação é um aspecto importante da teoria, pois se relaciona ao modo de ver o próprio campo de conhecimento ao qual nos filiamos - a própria disciplina em que nos inscrevemos. A História conhece diversos campos históricos: a História das Mentalidades, a História Econômica, a História Cultural, a História Política, a Micro-História, entre inúmeras outras modalidades.
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E quanto à "Metodologia"? O que faz parte da Metodologia? Vimos acima que "Metodologia" se relaciona ao verbo "Fazer". Quando o historiador vai iniciar o seu trabalho na prática, isto é, vai iniciar a sua pesquisa, deve adotar certas escolhas metodológicas. Para o âmbito de estudos que nos interessa, que é a História, devemos considerar que a maior parte das escolhas feitas pelos historiadores passam por aquilo que chamamos de "Fontes Históricas". Como o exame das fontes constitui a única maneira de um historiador atingir uma sociedade do passado, ou compreender processos que já aconteceram, isto termina por obrigar o método histórico a constituir e analisar fontes históricas. Ainda não existe um "visor do tempo" que possibilite o historiador enxergar diretamente o passado. Por isso, os historiadores se especializaram em enxergar o passado através das fontes: é através de fontes - resíduos, objetos materiais, textos produzidos na época que está sendo analisada - que os historiadores conseguem construir uma certa representação do passado (reunir fatos históricos e descrever processos, por exemplo) e também desenvolver a sua interpretação.
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Se vamos examinar algum problema histórico específico, o uso das fontes é fundamental. É claro que também é importante a leitura de Bibliografia (obras dos outros historiadores que examinaram o mesmo assunto). Mas esse diálogo com a produção dos outros historiadores apenas complementa o trabalho original que pode ser realizado por um historiador, e não substitui de maneira nenhuma a utilização de fontes históricas. Sem fontes, é como se estivéssemos enxergando uma época a partir dos olhos dos outros historiadores, e não estabelecendo um diálogo com a própria época que buscamos compreender.
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Uma última coisa importante a ser discutida é o significado de "Historiografia". A Historiografia constitui o conjunto das obras já produzidas por historiadores. Quando trabalhamos com o campo da Historiografia, estamos examinando o trabalho dos próprios historiadores. É como se tomássemos os próprios trabalhos e textos produzidos por historiadores como "fontes históricas". Na Historiografia - ou melhor, na análise dos trabalhos historiográficos, não estamos preocupados em examinar um problema histórico específico (o Nazismo ou a Revolução Francesa); o objetivo é examinar a maneira como os historiadores abordaram determinado problema histórico (por exemplo, como os historiadores produziram diferentes leituras sobre o Nazismo, ou como produziram diferentes interpretações ou teorias sobre a Revolução Francesa).
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Essa é a diferença entre um trabalho histórico (um trabalho que toma por objeto uma sociedade ou processo do passado) e um "trabalho historiográfico" (um trabalho que examina aquilo que foi produzido pelos historiadores em relação a determinada questão). Uma coisa e outra são importantes. Mas devemos ter consciência acerca da distinção entre os dois tipos de trabalhos.
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Para uma reflexão mais aprofundada sobre a distinção entre teoria e metodologia, leiam o primeiro capítulo do volume 1 de 'Teoria da História' (BARROS, José D'Assunção. Teoria da História. volume 1: os Conceitos Fundamentais da Teoria da História. Petrópolis: Editora Vozes, 2011).
sábado, 4 de setembro de 2010
sexta-feira, 27 de agosto de 2010
Importância da Teoria e Metodologia da História
Costumo dizer, e realmente acredito nisso, que a Teoria e Metodologia da História é aquilo de mais importante que um curso superior de História pode oferecer a um estudante de graduação - isto é, um 'historiador em formação'. E acrescento que esse 'historiador em formação' irá aprender Teoria e Metodologia da História não apenas nas disciplinas que levam este nome e em outras do mesmo circuito, mas nas próprias disciplinas de conteúdo específico relacionadas a uma temporalidade ou espaço ("História Antiga", "História Medieval", "História Moderna", "História do Brasil", "História da África", etc).
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Na verdade, penso mesmo que aquilo de mais essencial e útil que um aluno pode aprender dos seus professores destas diversas 'disciplinas de conteúdo' é precisamente Teoria e Metodologia da História. Assim, não é tão importante aprender conteúdos específicos de 'História Moderna' em um curso de graduação em História, quanto aprender Teoria ou Metodologia da História "através" da História Moderna. É menos importante aprender conteúdos específicos sobre a Revolução Francesa ou sobre o Renascimento, do que desenvolver competências relacionadas a Teoria e Metodologia através destes conteúdos. Por exemplo, ao estudar a Revolução Francesa em si mesma, o aluno pode alcançar aspectos ainda mais decisivamente importantes, para o seu futuro de historiador, do que os próprios conteúdos diretamente relacionados à Revolução Francesa. Quando se estuda a revolução francesa, ou qualquer outra revolução, pode-se aperfeiçoar a competência, por exemplo, de lidar teoricamente com as revoluções de diversos tipos, ou pode-se aprimorar a sua capacidade de trabalhar com as fontes deste período. Quando estudamos uma sociedade antiga ou medieval, não importa qual seja ela e em qual período, estamos aprendendo a lidar (teórica e metodologicamente) com sociedades antigas e medievais, e também aperfeiçoando ainda mais a nossa competência teórica e metodológica geral como historiadores.
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De fato, o principal a se aprender em um curso de graduação em História não pode ser os conteúdos espaço-temporais específicos, por eles mesmos. Estes conteúdos vão ser aprendidos ou assimilados, obviamente, mas o que eu quero dizer é que não são eles o que há de mais importante. Não é mesmo necessário que um conteúdo específico seja aprendido (isto é, se um conteúdo específico não for aprendido ou assimilado no curso de graduação, e uma infinidade deles não o serão, isso não repercutirá necessariamente como uma lacuna para a vida futura do historiador).
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Se os conteúdos específicos fossem o principal, o Ensino de História sempre seria lacunar. Por mais que um currículo de Graduação em História esteja bem guarnecido de disciplinas de História Antiga, sempre existirão sociedades antigas que ficarão faltando. Na História do Egito, por mais que seja oferecido um bom conteúdo, será obviamente impossível abarcar tudo sobre os vários milênios desta História, ou tudo o que seria importante para a humanidade saber sobre o Antigo Egito.
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O que podemos realmente aprender em um curso de graduação em História é sermos historiadores. Aprendemos a pensar teoricamente como historiadores, a agir metodologicamente como historiadores, a escrever como historiadores. Em um curso de História - "através" dos diversos conteúdos - aprendemos sobre o Tempo, sobre a alteridade das fontes, e sobre muitas outras coisas. Aprendemos a não cometer anacronismos, aprendermos a sermos críticos, e assim por diante. Não é um conteúdo espaço-temporal específico que é o mais importante, mas todas essas coisas.
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Costumo dar um exemplo. Imaginemos que um dia sejam descobertas as ruínas da Atlântida, e que, subitamente, os historiadores tenham à sua disposição as fontes de uma civilização antiga correspondente à Atlântida. A Atlântida, neste momento, deixaria de ser apenas uma lenda e passaria a ser História. No momento em que passassem a estar acessíveis aos historiadores as fontes históricas relacionadas à Atlântida, haveria uma espécie de corrida dos historiadores para escreverem os primeiros livros de história sobre a Atlântida. Possivelmente, algumas universidades incluiriam em seus currículos uma "História da Atlântida". De todo modo, é importante ter em mente que, se o principal a ser aprendido nos cursos de graduação fossem os conteúdos específicos ("História da Grécia", "História dos Estados Unidos"), os historiadores não poderiam elaborar - pela primeira vez - a "História da Atlântida".
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O que permite que os historiadores possam a qualquer momento elaborar uma história de qualquer coisa, inclusive a de uma civilização cujas fontes tenham sido repentinamente descobertas, é o fato de que eles aprenderam a pensar historiograficamente, a teorizar, a agir metodologicamente, a produzir uma escrita específica que é a do historiador. Diga-se de passagem, antes que existissem os cursos de graduação em História, a partir do século XIX, os historiadores não deixavam de aprender essas coisas, de acordo com o padrão de suas próprias épocas. É perfeitamente possível aprender fora da Universidade, também. De qualquer maneira, se existe uma Universidade, e um curso de graduação em História, é para que se aprenda algo ainda mais importante do que os conteúdos específicos: os pensares e fazeres relacionados à História, um modo de escrita, uma competência para dialogar com as fontes e com outros historiadores - uma consciência histórica. Em duas palavras: Teoria e Metodologia.
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É por isso que são tão importantes as disciplinas relacionadas à Teoria e Metodologia da História - e à Historiografia, que corresponde à análise das obras produzidas pelos historiadores. E é por isso, também, que é importante aos professores de disciplinas relacionadas a conteúdos espaço-temporais específicos - a "História do Brasil", a "História Contemporânea", e assim por diante - ensinar Teoria e Metodologia através de suas disciplinas.
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Quando digo "ensinar", estou utilizando a expressão com um sentido mais flexível. Não é "ensinar" no sentido de transmitir uma competência que é sua ao aluno. Ensinar aqui é mediar o grupo de alunos para que trabalhem de uma determinada maneira para que, a partir desta atividade, possam desenvolver competências várias. Trata-se, portanto, de agir como mediador de um grupo para que este aprimore a capacidade de pensar teoricamente, agir metodologicamente, escrever historiograficamente.
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Essa enfim, é a importância da caminhada que aqui iniciamos. Sem Teoria, Método, e o desenvolvimento de uma habilidade historiográfica de Escrita, não é possível a alguém se formar historiador. Teoria, Metodologia e Historiografia são o mais importante. Tudo o mais é negociável.
Para aprofundar mais a importância da Teoria na formação do Historiador, leia:
http://www.periodicos.proped.pro.br/index.php?journal=revistateias&page=article&op=viewFile&path%5B%5D=513&path%5B%5D=552
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Na verdade, penso mesmo que aquilo de mais essencial e útil que um aluno pode aprender dos seus professores destas diversas 'disciplinas de conteúdo' é precisamente Teoria e Metodologia da História. Assim, não é tão importante aprender conteúdos específicos de 'História Moderna' em um curso de graduação em História, quanto aprender Teoria ou Metodologia da História "através" da História Moderna. É menos importante aprender conteúdos específicos sobre a Revolução Francesa ou sobre o Renascimento, do que desenvolver competências relacionadas a Teoria e Metodologia através destes conteúdos. Por exemplo, ao estudar a Revolução Francesa em si mesma, o aluno pode alcançar aspectos ainda mais decisivamente importantes, para o seu futuro de historiador, do que os próprios conteúdos diretamente relacionados à Revolução Francesa. Quando se estuda a revolução francesa, ou qualquer outra revolução, pode-se aperfeiçoar a competência, por exemplo, de lidar teoricamente com as revoluções de diversos tipos, ou pode-se aprimorar a sua capacidade de trabalhar com as fontes deste período. Quando estudamos uma sociedade antiga ou medieval, não importa qual seja ela e em qual período, estamos aprendendo a lidar (teórica e metodologicamente) com sociedades antigas e medievais, e também aperfeiçoando ainda mais a nossa competência teórica e metodológica geral como historiadores.
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De fato, o principal a se aprender em um curso de graduação em História não pode ser os conteúdos espaço-temporais específicos, por eles mesmos. Estes conteúdos vão ser aprendidos ou assimilados, obviamente, mas o que eu quero dizer é que não são eles o que há de mais importante. Não é mesmo necessário que um conteúdo específico seja aprendido (isto é, se um conteúdo específico não for aprendido ou assimilado no curso de graduação, e uma infinidade deles não o serão, isso não repercutirá necessariamente como uma lacuna para a vida futura do historiador).
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Se os conteúdos específicos fossem o principal, o Ensino de História sempre seria lacunar. Por mais que um currículo de Graduação em História esteja bem guarnecido de disciplinas de História Antiga, sempre existirão sociedades antigas que ficarão faltando. Na História do Egito, por mais que seja oferecido um bom conteúdo, será obviamente impossível abarcar tudo sobre os vários milênios desta História, ou tudo o que seria importante para a humanidade saber sobre o Antigo Egito.
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O que podemos realmente aprender em um curso de graduação em História é sermos historiadores. Aprendemos a pensar teoricamente como historiadores, a agir metodologicamente como historiadores, a escrever como historiadores. Em um curso de História - "através" dos diversos conteúdos - aprendemos sobre o Tempo, sobre a alteridade das fontes, e sobre muitas outras coisas. Aprendemos a não cometer anacronismos, aprendermos a sermos críticos, e assim por diante. Não é um conteúdo espaço-temporal específico que é o mais importante, mas todas essas coisas.
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Costumo dar um exemplo. Imaginemos que um dia sejam descobertas as ruínas da Atlântida, e que, subitamente, os historiadores tenham à sua disposição as fontes de uma civilização antiga correspondente à Atlântida. A Atlântida, neste momento, deixaria de ser apenas uma lenda e passaria a ser História. No momento em que passassem a estar acessíveis aos historiadores as fontes históricas relacionadas à Atlântida, haveria uma espécie de corrida dos historiadores para escreverem os primeiros livros de história sobre a Atlântida. Possivelmente, algumas universidades incluiriam em seus currículos uma "História da Atlântida". De todo modo, é importante ter em mente que, se o principal a ser aprendido nos cursos de graduação fossem os conteúdos específicos ("História da Grécia", "História dos Estados Unidos"), os historiadores não poderiam elaborar - pela primeira vez - a "História da Atlântida".
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O que permite que os historiadores possam a qualquer momento elaborar uma história de qualquer coisa, inclusive a de uma civilização cujas fontes tenham sido repentinamente descobertas, é o fato de que eles aprenderam a pensar historiograficamente, a teorizar, a agir metodologicamente, a produzir uma escrita específica que é a do historiador. Diga-se de passagem, antes que existissem os cursos de graduação em História, a partir do século XIX, os historiadores não deixavam de aprender essas coisas, de acordo com o padrão de suas próprias épocas. É perfeitamente possível aprender fora da Universidade, também. De qualquer maneira, se existe uma Universidade, e um curso de graduação em História, é para que se aprenda algo ainda mais importante do que os conteúdos específicos: os pensares e fazeres relacionados à História, um modo de escrita, uma competência para dialogar com as fontes e com outros historiadores - uma consciência histórica. Em duas palavras: Teoria e Metodologia.
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É por isso que são tão importantes as disciplinas relacionadas à Teoria e Metodologia da História - e à Historiografia, que corresponde à análise das obras produzidas pelos historiadores. E é por isso, também, que é importante aos professores de disciplinas relacionadas a conteúdos espaço-temporais específicos - a "História do Brasil", a "História Contemporânea", e assim por diante - ensinar Teoria e Metodologia através de suas disciplinas.
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Quando digo "ensinar", estou utilizando a expressão com um sentido mais flexível. Não é "ensinar" no sentido de transmitir uma competência que é sua ao aluno. Ensinar aqui é mediar o grupo de alunos para que trabalhem de uma determinada maneira para que, a partir desta atividade, possam desenvolver competências várias. Trata-se, portanto, de agir como mediador de um grupo para que este aprimore a capacidade de pensar teoricamente, agir metodologicamente, escrever historiograficamente.
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Essa enfim, é a importância da caminhada que aqui iniciamos. Sem Teoria, Método, e o desenvolvimento de uma habilidade historiográfica de Escrita, não é possível a alguém se formar historiador. Teoria, Metodologia e Historiografia são o mais importante. Tudo o mais é negociável.
Para aprofundar mais a importância da Teoria na formação do Historiador, leia:
http://www.periodicos.proped.pro.br/index.php?journal=revistateias&page=article&op=viewFile&path%5B%5D=513&path%5B%5D=552
Dois Modelos Imaginários de Ensino
Antes de iniciar a caminhada de reflexão sobre a Escrita da História, eu gostaria de entretecer algumas reflexões sobre o Ensino, de maneira geral, e sobre o Ensino de História nos cursos de graduação, em especial. Faço isso apenas para me situar, ainda que primariamente e cometendo algumas simplificações (partirei, aliás, de uma dicotomização que não se verifica como tal na realidade complexa do Ensino, mas que é um bom começo para reflexão). Vou introduzir alguns comentários iniciais, e depois remeter a um texto que poderá ser acessado. Antes de mais nada, peço também desculpas aos especialistas em Educação, pois não sou um conhecedor específico da Teoria da Educação, e, aos especialistas, alguns de meus comentários talvez pareçam primários, lugares-comuns, ou mesmo equivocados. A maior parte das reflexões que apresento aqui foram produzidas por uma vivência de muitos anos em sala de aula, particularmente no Ensino de graduação em História, e também no Ensino de Música, uma outra área em que também atuei durante muito tempo.
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Fala-se muito no deslocamento, no último século, de modelos que visavam a 'transmissão de conhecimento' (que muitas não eram senão camuflagens de modelos voltados para a 'transmissão de informações') para novos modelos baseados na 'produção de conhecimento'. Esta questão, obviamente, é fundamental para o Ensino de História - inclusive para o Ensino de História em níveis de graduação, isto é, o Ensino destinado à formação do historiador. Vamos chamar aqui a esta formação específica, a que irá permitir que surja um profissional de história, ou ao menos alguém com um conhecimento especializado sobre o fazer histórico, de "formação histórica".
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É claro que este deslocamento de modelos sintoniza perfeitamente com o deslocamento de um modelo imaginário de História Factual, narrativa ou informativa, para um modelo de História problematizado, e por isso também se agrega a esta reflexão algo que também será útil mais adiante. Mas neste momento estou preocupado com a questão mais geral do Ensino mesmo - que poderia ser também o Ensino de Biologia, Física, Economia, Música, ou qualquer outro. Pretendo refletir sobre a posição dos vários agentes que fazem parte do processo de ensino, no que concerne a dois modelos-limite. Não digo que estes modelos ocorram de forma pura na complexidade real, mas será interessante refletir sobre esta dicotomia, mesmo que para discordar dela, propor depois uma reflexão mais complexa, motivar novos desdobramentos, e assim por diante.
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Deste modo, quero começar esta caminhada com este assunto que não fará parte do caminho central - o da reflexão sobre a Teoria da História - mas que poderá ser metaforicamente considerado como uma pequena estalagem na qual os viajantes pernoitaram antes de seguir a viagem. Afinal, estaremos envolvidos a partir daqui em um processo de Ensino e Aprendizagem em torno do fazer histórico, ou, mais especificamente, em um processo de construção da "formação histórica" que permitirá que assumamos no futuro - e refiro-me neste momento aos historiadores em formação - uma profissão específica, que se estabelece sobre a prática em uma disciplina que tem desenvolvido os seus próprios aportes teóricos, os seus métodos, uma forma de Escrita.
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Proponho então a leitura do seguinte texto, que escrevi para esta finalidade. Trata-se de uma reflexão sobre o que é o Ensino hoje, sobre como nos situamos diante dele. Refletir sobre isso poderá contibuir para as nossas escolhas diante do caminho a seguir:
http://www.scribd.com/doc/36440618/Modelos-Limite-de-Ensino-uma-reflexao-livre-2010
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Fala-se muito no deslocamento, no último século, de modelos que visavam a 'transmissão de conhecimento' (que muitas não eram senão camuflagens de modelos voltados para a 'transmissão de informações') para novos modelos baseados na 'produção de conhecimento'. Esta questão, obviamente, é fundamental para o Ensino de História - inclusive para o Ensino de História em níveis de graduação, isto é, o Ensino destinado à formação do historiador. Vamos chamar aqui a esta formação específica, a que irá permitir que surja um profissional de história, ou ao menos alguém com um conhecimento especializado sobre o fazer histórico, de "formação histórica".
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É claro que este deslocamento de modelos sintoniza perfeitamente com o deslocamento de um modelo imaginário de História Factual, narrativa ou informativa, para um modelo de História problematizado, e por isso também se agrega a esta reflexão algo que também será útil mais adiante. Mas neste momento estou preocupado com a questão mais geral do Ensino mesmo - que poderia ser também o Ensino de Biologia, Física, Economia, Música, ou qualquer outro. Pretendo refletir sobre a posição dos vários agentes que fazem parte do processo de ensino, no que concerne a dois modelos-limite. Não digo que estes modelos ocorram de forma pura na complexidade real, mas será interessante refletir sobre esta dicotomia, mesmo que para discordar dela, propor depois uma reflexão mais complexa, motivar novos desdobramentos, e assim por diante.
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Deste modo, quero começar esta caminhada com este assunto que não fará parte do caminho central - o da reflexão sobre a Teoria da História - mas que poderá ser metaforicamente considerado como uma pequena estalagem na qual os viajantes pernoitaram antes de seguir a viagem. Afinal, estaremos envolvidos a partir daqui em um processo de Ensino e Aprendizagem em torno do fazer histórico, ou, mais especificamente, em um processo de construção da "formação histórica" que permitirá que assumamos no futuro - e refiro-me neste momento aos historiadores em formação - uma profissão específica, que se estabelece sobre a prática em uma disciplina que tem desenvolvido os seus próprios aportes teóricos, os seus métodos, uma forma de Escrita.
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Proponho então a leitura do seguinte texto, que escrevi para esta finalidade. Trata-se de uma reflexão sobre o que é o Ensino hoje, sobre como nos situamos diante dele. Refletir sobre isso poderá contibuir para as nossas escolhas diante do caminho a seguir:
http://www.scribd.com/doc/36440618/Modelos-Limite-de-Ensino-uma-reflexao-livre-2010
Início de uma Caminhada
Vamos iniciar, nesse momento, uma caminhada pelo universo da Teoria e da Metodologia da História, da Historiografia, e de outros assuntos correlatos. Peço que todos os que quiserem fazer comentários, a um ou outro dos textos ou mensagens que serão postados daqui por diante, se apresentem rapidamente, não apenas indicando o nome mas também definindo a sua relação com o tema (professor ou estudante de alguma Universidade, leitor habitual de historiografia, ou curioso sobre a área, por exemplo). Isso apenas para situar as pessoas, o lugar de onde falam, suas circunstâncias.
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Embora a construção deste blog tenha sido motivada por encontros presenciais, que estarão ocorrendo na Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (onde sou professor na área de Teoria da História), a idéia é que ampliemos o universo de interlocutores, que consigamos dar início à produção de uma reflexão coletiva e interativa, em rede, sobre a História e a Teoria da História, seus métodos, sua escrita. Se conseguirmos a adesão de outros professores de Teoria e Metodologia da História para que tragam suas turmas a estes encontros virtuais, isso poderá vir a constituir uma experiência extremamente interessante.
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Quem quiser iniciar uma discussão, ou intercalar uma discussão autônoma entre os assuntos que serão discutidos semanalmente, também poderá fazer isso. Basta enviar um e-mail com o seu texto para mim, e eu o publicarei neste blog como parte desta caminhada que agora iniciamos. A orientação geral do blog é anarquista: aqui não existe um lugar de fala hierarquizado; todos podem se expressar livremente sobre os assuntos que serão tratados, trazendo suas próprias vivências, conhecimentos, incertezas, hesitações, ou mesmo suas angústias diante da complexidade deste campo de conhecimento que é a História.
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José D'Assunção Barros
e-mail: jose.assun@globo.com
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Embora a construção deste blog tenha sido motivada por encontros presenciais, que estarão ocorrendo na Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (onde sou professor na área de Teoria da História), a idéia é que ampliemos o universo de interlocutores, que consigamos dar início à produção de uma reflexão coletiva e interativa, em rede, sobre a História e a Teoria da História, seus métodos, sua escrita. Se conseguirmos a adesão de outros professores de Teoria e Metodologia da História para que tragam suas turmas a estes encontros virtuais, isso poderá vir a constituir uma experiência extremamente interessante.
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Quem quiser iniciar uma discussão, ou intercalar uma discussão autônoma entre os assuntos que serão discutidos semanalmente, também poderá fazer isso. Basta enviar um e-mail com o seu texto para mim, e eu o publicarei neste blog como parte desta caminhada que agora iniciamos. A orientação geral do blog é anarquista: aqui não existe um lugar de fala hierarquizado; todos podem se expressar livremente sobre os assuntos que serão tratados, trazendo suas próprias vivências, conhecimentos, incertezas, hesitações, ou mesmo suas angústias diante da complexidade deste campo de conhecimento que é a História.
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José D'Assunção Barros
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